Andamos tão aborrecidos com notícias ruins que não temos mais vontade de ler quase nada. Gostaríamos de ler mais, contudo, tirando os assuntos torpes, que acabam nos atraindo mais que o devido, quase não lemos as outras matérias. Não é estranho?
A internet nos permite pagar contas, comprar produtos, passagens, veículos, e milhões de outras coisas, sem sairmos de casa. Com todas estas facilidades, deveria sobrar mais tempo para nos dedicar ao estudo e ao trabalho. No entanto, isso não acontece; não sobra assim tanto tempo. Parece exemplo da tal teoria da relatividade.
A sobrevivência da atual geração depende hoje de uma excelente formação profissional. É preciso conhecer bem o idioma pátrio, dominar fluentemente uma outra língua, ou várias, além de muita ambição e inteligência. Não raro, o recém-formado que chega ao mercado de trabalho, sujeita-se a qualquer tipo de emprego, pois dificilmente irá trabalhar imediatamente na sua área de formação.
Sou um exemplo dessa situação típica e, sem querer copiar o escritor Rubem Alves, tudo o que fiz e sou deve-se ao fato de não ter sido possível uma realização que se ajustasse a minha verdadeira vocação. Tudo a que eu aspirava exigia conhecimentos de Latim, ou Química, Física e Matemática.
Será que dancei? Não sei. Mas deu certo! Acabei sendo professor! Foi bom? Acho que não.
Faz tempo que passou aquela fase de herdar bens, de ficar "na cola do pai", ou arranjar um cargo na sua empresa. Agora é cada um por si. As grandes fortunas estão acabando. Tudo acontece numa década, a cada ano, a cada dia, a cada hora.
Nesta evolução dos costumes, entre perdas e ganhos, algumas coisas perduram, para nosso deleite e também para enriquecimento cultural e espiritual. A leitura é uma delas, um hábito que poucos adquirem e cultivam para o resto de suas vidas.
Há quem não comece o dia sem a leitura do jornal diário. Quem gosta de ler a seção de artigos está meio órfão. Os chamados artigos de fundo ocupam a maior parte dos espaços.
Esses textos são necessários sim, pois constatam e revelam fatos relevantes: que a água e o petróleo vão acabar, que o ar está cada vez mais poluído, que o aquecimento global é uma verdade científica, que os preconceitos e os ódios vão continuar mais acirrados que nunca e que a humanidade vai desaparecer.
Artigos de fundo, em verdade, desculpem a ironia, deveriam refletir o mundo da magia, a palavra dos profetas, dos gurus e dos que elaboram os horóscopos.
De agora em diante a população da “melhor idade” está deixando aos jovens, com prazer, a aprendizagem e a solução desses assuntos sérios. Vejo por mim. Sinto mais aconchego lendo Danuza Leão, os gibis do Chico Bento, ouvindo boa música e boas piadas.
Em verdade, quem está gozando a vida é aquele que aprendeu a viver na simplicidade, sabendo que não é necessário esperar a aposentadoria para se divertir. O povo lê o curto e o simples. E sabe que a vida é simples.
Poucos brasileiros leem. Comprar jornal? Revistas? Ler o inatingível? O ininteligível? As proezas do Adriano e dos Ronaldos? Ônibus incendiados? As notícias perderam a graça, o futebol perdeu a graça, as novelas capricham nas imoralidades.
Os espaços da mídia estão sendo distribuídos, salvo engano, de maneira meio obtusa. Os redatores – e muitos não têm culpa – estão preterindo os colaboradores que discorrem sobre amenidades, e privilegiando os especialistas em artigos chamados de fundo.
Os leitores estão órfãos dos assuntos simples, do dia-a-dia, sobre o que acontece no nosso quintal, em nosso meio. Há uma multidão que gosta de lero-lero, do que acontece em todas as casas e na vida de cada um.
Esses artigos de fundo, maravilhosos, úteis, bem escritos por excelentes jornalistas e articulistas, e bem pagos, o povo não lê, pois tem até mesmo dificuldade de entender; e pouco interessam ao leitor comum.
A maioria das pessoas lê textos de jornais e revistas somente depois de ler o nome do autor, porque sabem que vão rir e se identificar com o cenário e personagens. Vão perceber que na casa deles acontece a mesma coisa.
Estão em falta artigos que enriquecem a alma, que fazem rir. E talvez sonhar.
Eu adorava ouvir pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, às 14 horas, as crônicas do Rubem Braga. Ele mesmo, ou um locutor, lia o texto “A crônica da cidade” ou do dia, não me lembro. Fico imaginando como seria maravilhoso se pudessem ser reprisadas.
Esse tipo de literatura e assunto, com o envolvimento peculiar da crônica, cativam e atraem o leitor, que lê e ouve com gosto, e até fica triste quando termina.
Assuntos relevantes são necessários e valorizam a imprensa, mas esta não seria desprestigiada se estendesse espaços aos colaboradores que abordam temas simples da vida.
Entendemos, na nossa modesta opinião, que ambas as matérias são de igual importância. Tanto a que leva ao conhecimento do noticiário nacional e internacional, aos assuntos de grande interesse, relacionados à economia e à política, quanto os textos mais leves e digestivos, ao estilo da crônica.
As duas abordagens cabem no corpo de um jornal diário, compondo o cotidiano de nossas vidas - a real e a que faz parte do sonho.
Plinio Montagner