“O que será? Que Será? Que vive nas idéias desses amantes...
O que não tem decência nem nunca terá! O que não tem censura nem nunca terá!
O que não tem tamanho... O que não tem governo nem nunca terá!
O que não tem vergonha nem nunca terá! O que não tem juízo...”
Chico Buarque
Acabo de sair do Teatro no SESI, “Cachorro”, adaptação de um conto de Nelson Rodrigues. Um triângulo amoroso que findava em tragédia. Solange termina a peça gritando que tinha “tudo” de seu marido, carinho, amor, respeito, sensibilidade, tudo que um marido pode dar menos o que só Almeidinha (seu amante e melhor amigo de Apoprígio, seu marido) pode lhe dar: “Amor de amante! Amor de amante!” Chocado e angustiado com a incapacidade humana em viver o amor tão clara na obra do mestre Nelson organizei os pensamentos.
Roberto Freire disse: “É o amor e não a vida o contrário da morte.” Ou seja, quando o que sentimos, pensamos e fazemos andam juntos experimentamos equilíbrio e plenitude. Do contrário... Analiso então a discrepância entre coração, sexo e ação. O que faz a maioria dos seres humanos viverem curtas paixões aos vinte anos e, na quase totalidade de suas vidas, compartilharem seus momentos com um amor morno destituído de sexualidade?! Porque a maioria dos casais humanos da “selinhos” frios e duros, com um gosto amargo na boca?! É possível prometer amor?!
Vislumbro o amor como uma brisa, um sentimento que chega sem hora marcada e nos inebria, nos inunda. Da mesma forma que ele chega vai: incapturável. Cronologia: O amor com sexualidade é algo lindo e incontrolável que dura aproximadamente dois anos. Do segundo ao quinto ano de contato o desejo e a atração diminuem pela metade, mas ainda propicia satisfação sexual devido a adaptação sensual mais completa dos parceiros. Do quinto ao oitavo ano as relações perdem o brilho, a sexualidade se vai e a freqüência de semanal passa a ser mensal, com um nível de prazer insatisfatório, mas aceitável. Passados oito anos a satisfação sexual abandona quase que totalmente a relação ficando (num exemplo positivo) o amor do coração, o carinho, o respeito e a intimidade de pessoas que dividiram oito anos de experiências. Agora uma reflexão. Se respeitar essa regra biológica/ cronológica/ filogenética é adotar uma conduta anti-social, anti-casamento e desviante, estamos dizendo que a cultura humana não é baseada na realidade natural do ser humano e na satisfação de suas necessidades básicas, mas calcada em outros princípios: econômicos, financeiros e de sobrevivência material que fragmentam nossa existência, que desconectam sentimento, pensamento e ação. Em “A origem da família, da propriedade privada e do estado” F. Engels associa o surgimento do casamento compulsório com a propriedade privada. Talvez seja porque ninguém nos ensina a arte do amor nas escolas. Rudolf Steiner marca mais um ponto, assim como Wilhelm Reich:
“... Devido ao entrosamento entre leis de herança e concepção, o problema matrimonial encontra-se firmemente enraizado na vida sexual, fazendo com que a ligação sexual de duas pessoas deixe de ser uma questão de sexualidade. O recato extra matrimonial da mulher e sua fidelidade conjugal não podem ser mantidos por um espaço de tempo prolongado sem um elevado grau de repressão sexual de sua parte; daí a exigência de virgindade. Isto cria condições que, embora não intencionalmente pretendidas pela ordem econômica, são necessariamente parte do seu sistema sexual: o matrimonio monogâmico dá origem ao adultério, que nasce junto com aquele; a virgindade das jovens dá origem à prostituição. O adultério e a prostituição constituem parte integrante da dupla moral sexual, que permite ao homem, tanto antes quanto depois do casamento, aquilo que tem que negar às mulheres por motivos econômicos. Devido às exigências naturais da sexualidade, entretanto, a rígida moral sexual apresenta resultados absolutamente contrários aos pretendidos. O imoral, no sentido reacionário, isto é, o adultério e as relações sexuais extra-matrimoniais, transformam-se em fenômenos sociais grotescos: perversão sexual por um lado, e sexualidade mercenária, dentro e fora do casamento, por outro.” (A Revolução Sexual, p.68).
Estatísticas comprovam que os motéis são financiados por pessoas casadas (que não encontram mais satisfação com o cônjuge). O que explica pagar por um quarto?! Se solteiros e livres, satisfaríamos as necessidades em casa – com exceções para algumas fantasias. Mais da metade dos clientes das prostitutas são homens casados e frustrados sexualmente. Tudo se encaixa, negação da expressão da sexualidade gera adultério e perversão. Sabemos que uma mulher solteira com mais de trinta anos sofre preconceito em nossa cultura. Sabemos que o casamento e os filhos são cobranças sociais que ambos os gêneros recebem com maior intensidade à medida que os anos avançam. É um fato a força desses determinantes. E seu significado?!
Se a relação indissolúvel monogâmica traz doenças individuais e sociais, se a fidelidade por consciência é nociva: qual regra faz com que os casais humanos continuem juntos após a sexualidade abandonar o coração?! Porque casar?! Porque adotar uma postura irracional ao jurar a eternidade para um sentimento incontrolável?!
1. Filhos. Sim, lindas crianças geradas com amor são bem vindas, mas a cobrança social por filhos (netos, sobrinhos, etc.) é baseada em alguma reflexão inteligente?! Porque esse estímulo da prole alheia?! A humanidade já está hiper lotando seu habitat! O homem se mostra incapaz de educar um novo ser sem reprimi-lo ou causar doenças! Neste contexto, de onde vem a cobrança por filhos?! O infame dito popular “os filhos seguram o casamento” que dá uma função de mercadoria ao surgimento de uma vida será fruto da reflexão ou do narcisismo do ser humano!? Antidepressivos humanos?!
2. Vazio existencial. Suportar a própria solidão é algo aterrorizante pra nós humanos, e suportar a liberdade sexual (pensamento, coração e sexualidade juntos) é algo raro. O casamento chega com a promessa de quantificar/ capturar o amor. Essa ilusão de controle emocional tranqüiliza e gera, ao passo que tira a magia da vida, a infelicidade que transborda nos lares humanos: assim, a solidão a dois é uma saída contra o silêncio que nos leva pra dentro. (ver “Cenas de um casamento” de Ingmar Bergan). "São os participantes, e não o funcionário do foro quem decide se o casamento existe ou não." W. R. Nestes termos, é fácil um genitor desenvolver amor exagerado por seu filho e o complexo de Édipo é uma regra. Nossa vida em pares é desajustada, os cônjuges – ex-amantes, agora “amigos”, companheiros, sócios, pais - escondem poderosos desejos por outras pessoas e perdem rapidamente a graça e a espontaneidade. Acumulam muita raiva e mágoa, se sentem traídos e traidores. Como são feias as pessoas que cortaram a ligação entre pensamento, sexo e coração.
3. Medo da velhice. Precisamos de alguém - filhos - para cuidar de nós em nossa velhice. Óbvio, com o estilo de vida desconectado e vivendo ao lado de um companheiro que não dá mais sentido e significado a nossa existência seremos velhos doentes e aleijados. Pior, conviver diariamente em meio a mágoas e conflitos emocionais gera desequilíbrios, desconforto e loucura. Ora, se o casamento e a procriação têm no medo uma motivação não precisamos de placas indicando que essa estrada dá num precipício.
Já é senso comum que o mito do amor romântico imortal contradiz a conexão entre sexo e coração, como fica explicito nas tristes e reais piadas populares:
“Quer conhecer tua namorada... CASA!
Quer conhecer tua mulher... SEPARA!!!”
“Quando me casei, descobri a felicidade.
Mas aí, já era tarde demais...”
“Casamento é uma tragédia em dois atos: civil e religioso.”
"Casamento é igual Avenida Paulista:
começa no Paraíso e termina na Consolação"
Lembrei novamente de Wilhelm Reich: “A maior parte da vida sexual se desenrola, na verdade, antes e fora do casamento.”
Existe um casal que vive junto a mais de dez anos e é sexual e afetivamente saudável?!
Quando digo sexual e afetivamente saudável digo:
Que se toca profundamente com os olhos, peito, abdome e sexo. Que, companheiros, brincam e jogam com alegria genuína e sinceridade. Que compartilham orgasmos sagrados na fusão de suas almas. Que não usam drogas (álcool e psicotrópicos legais) e não viram workaholics para se afastarem do lar. Que se entregam a fantasias (imaginado outros parceiros) no escuro de seus quartos para suportar o contato sexual “arroz com feijão”. Eu não conheço nenhum. Todos que encontro tem sua sexualidade desconectada de seu coração. “Amam” seus companheiros com uma mescla de pena e culpa, e descarregam seu desejo sexual em infindáveis objetos externos. Perderam, já há alguns anos, a espontaneidade e a sinceridade que eram a beleza de sua união. Na frente das visitas e amigos são amáveis e se tratam com cordialidade, mas na intimidade são dois inimigos íntimos. Se suportam. Geralmente bebem (“socialmente”) e se entregam a fantasias de ascensão social/ profissional. Carregados de ressentimentos e mágoas, em sua totalidade mentem e escondem desejos que tem por outros seres humanos, representam uma fidelidade falsa que nada tem a ver com lealdade. Muitos estão juntos para não traumatizarem os filhos com uma separação. Ou para manter os negócios da família, seu status. “Felizes” geralmente criam doenças (leia-se câncer) nas regiões responsáveis pelo prazer: próstata, útero, ovários e seios.
O congelamento e a paralisia emocional funcionam como fuga para não assumir que o sentimento há muito foi embora - alguns desenvolvem doenças nos olhos para não “ver” a realidade. A repressão do desejo por outros consome muita energia da personalidade, mas tudo se completa, pois, exaustos, é mais fácil dormir lado a lado por anos na mesma cama – os reflexos da imobilidade durante o sono também podem ser vistos na diminuição da vitalidade e espontaneidade ou no aumento da irritabilidade no trânsito. A falta de prazer traz a depressão... Quando a falta do desejo dá lugar à amizade, ótimo, mas poucos se separam antes de se mutilarem. E os problemas não terminam aí.
“Aquilo que da miséria matrimonial não pode ser sanado diretamente nos conflitos conjugais é despejado sobre as crianças. Isto estabelece novos danos para a sua independência e sua estrutura sexual, mas também cria um novo conflito: o da aversão ao casamento em virtude do que viram no casamento dos pais, isto é, o conflito entre a oposição ao casamento e a compulsão econômica posterior de casar.” W.R.
Será que o amor com sexo deve determinar a duração da união?! Amor sem desejo sexual pode prover uma relação afetiva saudável ao ser humano?!
"Fui acusado de ser um utópico, de querer eliminar o desprazer do mundo e defender apenas o prazer. Contudo, tenho declarado claramente que a educação tradicional torna as pessoas incapazes para o prazer encouraçando-as contra o desprazer. Prazer e alegria de viver são inconcebíveis sem luta, experiências dolorosas e embates desagradáveis consigo mesmo. A saúde psíquica não se caracteriza pela teoria do nirvana dos iogues e dos budistas, nem pelo hedonismo dos epicuristas, nem pela renúncia monástica; caracteriza-se, isso sim, pela alternância entre a luta desprazerosa e a felicidade, o erro e a verdade, o desvio e a correção da rota, a raiva racional e o amor racional; em suma, estar plenamente vivo em todas as situações da vida. A capacidade de suportar o desprazer e a dor sem se tornar amargurado e sem se refugiar na rigidez, anda de mãos dadas com a capacidade de aceitar a felicidade e dar amor." Wilhelm Reich
Dante Moretti
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Referências bibliográficas