Qual nosso pior inimigo?! Posto que todos temos desejos inaceitáveis que surgem de dentro de nós, um grande inimigo nosso pode estar muito mais perto do que imaginamos.
Todos temos segredos, algo escondido, que não compartilhamos com ninguém. O Papa tem, o Dalai Lama tem, tua mãe, teu pai, teu filho, teu marido, tua esposa, o professor, o presidente, teu terapeuta, teu médico, até o Chico Buarque tem. Recantos escuros do labirinto humano. Lugares que não vemos, instintos que não creditamos a nós mesmos. Mas que fazem parte de nós. Que se fazem sentir em nossas ações, em nossos movimentos. Invisíveis! Sinistros! Sinuosos! Ladinos!
Cada um de nós lida com eles de jeitos diferentes. Cada um de nós tem seus mecanismos de defesa para se desviar destes impulsos inaceitáveis. Pois quebram com nosso ideal de vida, ideal de ego, ideal de personalidade. Todos, do serial killer mais perverso ao líder religioso mais moralista, temos um ideal de vida e valores tidos como os perfeitos, os melhores a serem seguidos. E, todos, do maconheiro sujo ao “almofadinha” chato temos inveja, medo de amar, ambições inescrupulosas, soberba, narcisismos exagerados, devaneios de onipresença, megalomanias, obsessões...
Pronto, está posta a contradição, o paradoxo, a controvérsia. Deus e o diabo em um só corpo. “Zorba, o Buda”. O moralista e o indecente estruturam a mesma personalidade. A única diferença é que a parte moralista mora no consciente, no ego, todos vêem, e a indecente no inconsciente, é nossa sombra.
Findado o prelúdio, e dando as boas vindas ao inconsciente, agora o foco. Dos cinco caráteres básicos elencados por ALexander Lowen – rígido, oral, esquizóide, masoquista e psicopata – o que mais utiliza a defesa “coitadinho de mim” é o oral. Este é meu foco aqui, este tipo de defesa. O escolhi porque o defino como sendo o mais perigoso de todos.
Entre os praticantes de artes marciais, sabe-se que o pior inimigo é aquele que não se pode ver. Quando não vejo meu inimigo, estou a mercê de seus ataques. Clichês antigos, “o golpe tem que ser sentido antes de ser visto” ou “olhar para o inimigo é o primeiro passo para vencê-lo”, sustentam meu argumento.
Explico. Vamos, para isso, primeiro aos rótulos - adoro os rótulos - depois cito os gritos e gemidos e, por fim, espero que o insight surja espontaneamente em suas mentes, caros leitores: o salto quântico!
Ela tinha muitos traços infantis na personalidade: fraqueza, dependência dos outros, agressividade precária, uma sensação e um desejo interno de ser carregada, apoiada e cuidada. Às vezes ia para a independência exagerada, que não mantinha nas situações de tensão; buscava sempre uma nutrição narcísica (“o mundo deve me satisfazer”) que não teve na infância – aí a associação com a fase oral, com a falta de satisfação na fase oral. Como isso não acontecia, sentia sempre ressentimento e hostilidade. Tinha uma grande exigência e limitada resposta, grande dependência disfarçada pela hospitalidade, grande inteligência verbal e fraca realização concreta, alternância de um ego inflado e desamparo; tendência à depressão; grande interesse por comida; cansaço rápido (pressão arterial baixa - metabolismo basal baixo) e sentimento de privação. A experiência básica do caráter oral é a carência afetiva.
A estrutura oral é um estado de baixa carga energética. A energia não esta fixada no centro e flui até a periferia do corpo de modo minguado. Todos os pontos de contato com o meio ambiente tem uma carga menor do que a necessária. As mãos e pés são geladas, os olhos são fracos e tendem à miopia, e o nível de excitação genital é reduzido. O corpo tende a ser longo, esguio e fino. O peito murcho, um tanto vazio. As pernas fracas, compridas e magricelas (não dão a impressão de sustentar o corpo todo). Os joelhos juntos, travados. Os pés são também estreitos e pequenos. Existe a tendência a cefaléia devido a tensão no pescoço e cabeça; cintura pélvica contraída; impressão de um saco vazio. Energia suficiente apenas para garantir as funções vitais. Fraqueza nas costas; cansaço na região lombar; pele fina e machucável. A energia flui para cima e não para baixo. A respiração é artificial pois durante a fase oral, a carência afetiva reduz o impulso de sugar.
Todos satisfeitos com o sucesso do desastre?! Então respiremos! Agora os gritos! As vísceras!
Júlia era confusa. Não sabia se queria ficar com Pedro ou com Aline. Não sabia se queria ir desfilar as jóias com as amigas heteros na boate badalada ou se iria na festa GLS com as lésbicas. Assim, mentia para ambos. Assim, vivia com ambos. Sempre sofrendo e sempre fazendo tudo que queria. Às vezes Pedro ficava confuso: “coitada da Júlia! Tão frágil, tão perdida!” Mal sabia ele que ela curtia muito a vida, que gozava com seu sintoma, que tinha prazer ao chorar e ser trágica. Perversa, demoníaca, por trás do rosto de anjo, escondia uma gárgula dentro de si. Aline também não sabia o que fazer com este ser tão frágil. Às vezes pensava em abandoná-la, mas o que seria dela sozinha, sem sua companhia?! Poderia morrer, se matar, e ela não queria esse peso.
Que parasita voraz! Que mente sugadora! Mestra na arte de chupar. Chupar a vida alheia. O ser humano é realmente um universo. Quântico. Surreal!
Um dia eu lhe questionei sobre a responsabilidade que temos em nossas escolhas: “Diga-me com quem andas que te direi quem és!” Lhe ataquei com amor. Lhe nutri de insights, fiz uma aliança com sua parte saudável. Apontei sua sedução dissimulada. Desmascarei sua defesa com a sensibilidade de um amante. Com a paixão de um pai lhe mostrei que pode se nutrir sozinha também, de oxigênio, de trabalho, de conhecimento, etc... tortuosas trilhas.
Mas abdicar do prazer de “se perder” pra não ter responsabilidade sobre suas ações e assim se aliviar do peso e da culpa é um hábito difícil de largar. É uma defesa inteligente, astuta. A pessoa se sente incrivelmente bem, pois da vazão a todos os seus impulsos e não se sente culpada. Sofre, sim, mas engendra pena, é vítima da vida, um coitado, um perdido, e todos se compadecem dela. É como se ela não tivesse responsabilidade sobre seus atos.
Para tudo isso respiramos muito juntos, sempre sentindo os pés e as pernas. Ela disse muitos “nãos” para manifestar seu desejo real. Foi rejeitada por mim várias vezes, e me cortou outras tantas, para assumir e contatar seu medo de abandono. Disse “não” olhando nos meus olhos e manteve o contato, assumindo assim sua negatividade e hostilidade sem perder meu afeto e carinho. Recebeu meus “nãos” e sentiu na pele as lembranças infantis de rejeição e abandono. E assumiu seus medos... Deste passo – uma caminhada de quase um ano - chegamos nos pais, que, segundo ela, nunca a aceitaram. Ficou claro que ela buscava a aceitação dos pais. A “falta” da mãe – do seu amor e afeto - explica a relação homossexual (a busca desse afeto em outra mulher). O “distanciamento” do pai – seu corte brusco no contato quando da chegada da fase edípica – sustenta o medo do orgasmo heterossexual, o medo de manifestar sua agressividade (e perder o afeto/ amor). Mas essa é outra história... outra highway, infinita highway?!
Dante Moretti