“Nós vivemos como peixes. Com a voz que em nós calamos. Com essa paz que não achamos...
Peixes, pássaros, pessoas. Nos aquários, nas gaiolas, pelas salas e sacadas.
Afogados no destino de morrer como decoração das casas.
Nós morremos como peixes. O amor que não vivemos. Satisfeitos mais ou menos.
Todas iscas que mordemos. Os anzóis atravessados, nossos gritos abafados...”
The Darma Lovers
“Você pode ouvir os fogos de artifício lá fora?! Você já pensou no porque de, em todo o mundo, em toda a cultura, em toda a sociedade, existirem alguns dias no ano para a celebração?! Esses poucos dias de celebração são apenas uma compensação porque essas sociedades tiraram toda a celebração da sua vida, e, se nada é dado a você em compensação, sua vida pode se tornar um perigo para a cultura.”
Quando leio este trecho lembro de pessoas que vivem como gado, “povo marcado, povo feliz”. Penso naqueles que chegam em suas casas exaustos de tanto trabalhar para acumular dinheiro. Ricos ou pobres, hippies ou “da sala de jantar” (vide Ney Matogrosso) sustento estarem no mesmo barco. O barco da massificação, o barco da reprodução. Quando a vida se resume a trabalhar sem prazer e diariamente, a ditadura da felicidade é necessária. Produção de significados. Em massa. Se os valores da sociedade me indicam um caminho vazio, quem vai lidar com esse vácuo dentro de mim?! Se o sistema for bem organizado ele deve reciclar seu lixo, certo?! Futebol, cerveja, natal, ano novo, carnaval, páscoa, dia dos pais, mães, crianças, namorados. Tem uma função clara na psicologia de massas.
“Toda a cultura precisa lhe dar uma compensação, para que você não se sinta totalmente perdido na infelicidade, na tristeza. Mas essas compensações são falsas. Esses fogos de artifício e essas luzes lá fora não podem fazê-lo regorjizar-se. São somente para crianças; para mim são apenas uma amolação. Mas no seu mundo interior pode haver luzes, melodia, alegria continuamente”.
Passamos um terço de nossas vidas sendo “educados” para ganharmos dinheiro. Nada sobre o interior, nada sobre a velhice, o prazer, as relações, espiritualidade. Dessa forma, o trabalho, as relações, o casamento, tudo se torna um fardo. Esse jeito da sociedade funcionar cria problemas. Remédios, psiquiatras, sofrimento... Quem trabalha com prazer, de acordo com seu interior, não fica feliz quando existem muitos feriados, ou quando fica demasiado tempo sem exercer seu ofício. Quem tem a capacidade de amar com paixão não precisa esperar o dia dos namorados ou o dia das mães para manifestar o sentimento que nutre. Controlar isso é anti natural. Não podemos escolher amar alguém, nem deixar de amar. O amor vem como uma brisa, e, assim como vem, vai. Nada me garante que no dia x estarei disposto a sentir o que manda o calendário, ou a indústria coorporativa. Dar um presente é algo lindo, mas quando genuíno, espontâneo. Do contrário é perverso. Heterorregulado.
“Lembre-se sempre de que a sociedade vai lhe dar compensações quando sentir que a parte reprimida pode explodir em uma situação perigosa, se não for compensada. A sociedade sempre encontra alguma maneira de permitir que você libere o que está reprimido, mas isso não é verdadeira celebração, e não pode ser”.
Milhões de pessoas torcendo por times de futebol em partidas que são arranjadas, jogadas por jogadores que são profissionais e mudam de time como quem muda de canal (vide o livro censurado “CBF Nike”). Milhões de pessoas chorando, gritando e se emocionando pela vida e luta de outros. Milhões de pessoas interessadas na vida privada de “celebridades” efêmeras, inconscientes dos aspectos da cultura que afetam profundamente a sua existência. Viver a vida dos outros, em algum momento, gera desconforto. Esse desconforto precisa de vazão. Seja chamando o juiz de filho da puta ou dançando o bonde do tigrão.
“A verdadeira celebração deveria brotar de sua vida, em sua vida. A verdadeira celebração não pode acontecer de acordo com o calendário: no dia primeiro de novembro você vai celebrar. Estranho, o ano inteiro você é infeliz, e, no dia primeiro de novembro, de repente, você sai da infelicidade, está dançando. Ou a miséria era falsa ou o dia primeiro de novembro é falso. Ambos não podem ser verdadeiros. E uma vez que termine o dia primeiro de novembro, você está de volta ao seu buraco negro, cada um na sua miséria, cada um na sua ansiedade...”
É, “tudo tomou seu lugar depois que a banda passou...” Só que a banda nunca passa. Assim que ela passa chega outra, e outra, e outra. É a ditadura da felicidade e o velho pão e circo. “Pare o mundo que eu quero descer” (rs).
Dante Moretti
*Texto do livro “Vida, amor e riso” do Osho e trechos de Chico Buarque, Ney Matogrosso e Raul Seixas.