O comportamento compulsivo no indivíduo caracteriza-se pelo desejo premente de realizar uma ação que, a princípio, lhe proporciona prazer, mas que, ao longo de sua realização ou após ela, causa-lhe sentimentos de culpa e mal-estar.
Ele pode, muitas vezes, estar associado ao consumo de drogas como o álcool, a maconha, o cigarro, entre outras, mas a compulsão não se relaciona exclusivamente com o uso de substâncias químicas. Ela pode estar presente em outros comportamentos relacionados, por exemplo, ao uso de computadores, aos jogos, às atitudes de consumo de bens (compras), às relações sexuais. Tais comportamentos sejam eles relacionados ao uso de substâncias químicas ou não, interferem no mecanismo de prazer podendo se tornar patológicos.
O comprador compulsivo, por exemplo, sempre cede à pressão de comprar, e cede, em especial, quando sentimentos negativos o dominam, deixando-o com a auto-estima rebaixada ou com dificuldades para se relacionar socialmente. Assim, deve-se considerar que o prazer saboreado pelos atos compulsivos é momentâneo, logo se dilui, e o indivíduo para reconquistá-lo volta a repetir o ato compulsivo.
Normalmente, o indivíduo compulsivo verbaliza que consegue ficar frente à situação que lhe proporciona prazer sem problema algum, ou seja, que é capaz de resistir ao desejo, porém isto não é verdade, ou seja, o comportamento compulsivo é estimulado pela facilidade de acesso ao objeto de prazer, uma vez que a sua simples visão pode liberar o desejo incontrolável.
Freqüentemente encontramos no indivíduo que apresenta comportamento compulsivo a dependência e a depressão. É comum encontrarmos pessoas deprimidas que desenvolvem atitudes de consumo para melhorar seu ânimo, passando, com isso, a desenvolver os comportamentos compulsivos, gerando, em muitos casos, um alto nível de dependência.
Uma compulsão encontrada com freqüência nos dias atuais é o uso de computadores, em geral com o acesso à Internet. Os pais procuram os consultórios psicológicos desorientados, pois não sabem o que fazer quando seus filhos ficam horas à frente do computador.
Hoje encontramos dois fatores que, associados, tornam-se extremamente perigosos: de um lado a facilidade das pessoas estarem frente ao computador e, de outro, a dificuldade de se relacionarem devido à timidez, fobias e depressões. A junção destas duas características – facilidade de acesso ao computador e dificuldade de relacionamento social – tem levado ao desenvolvimento de comportamentos compulsivos sérios. Crianças chegam a perder o ano escolar e adultos são dispensados dos seus empregos por passarem mais tempo em jogos ou em correspondências virtuais do que em suas tarefas e obrigações.
No caso da utilização excessiva de computadores pelas das crianças, percebemos sérias limitações dos pais em ajudá-las, principalmente pelo fato de pouco dominarem tal tecnologia, deixando, com isso, de ter a exata noção dos caminhos percorridos pelos filhos através do computador, ficando à margem das informações, dos perigos e dos riscos corridos pelas crianças.
O computador prende a atenção da criança em uma proporção muito maior que a televisão, uma vez que permite um processo de interação, ao passo que frente à TV, a criança é um mero expectador. É preciso, então, que os pais tomem alguns cuidados em relação ao uso do computador pelos seus filhos, seja limitando o tempo de sua utilização, estimulando-os a estabelecer vínculos de amizade com outras crianças, incentivando-os à prática de esportes ou a outras atividades sociais e culturais que possam ampliar suas possibilidades de relacionamento.
O importante é saber identificar o comportamento compulsivo e tomar as devidas providências no sentido de eliminá-lo. A compulsão tem tratamento, mas para tanto é necessário reconhecê-la e, uma vez reconhecida, deve-se dificultar ao máximo as situações que possam alimentá-la. Assim, por exemplo, se a compulsão for relacionada a compras, os pais devem evitar que o dinheiro fique à mão, se estiver relacionada ao uso de computadores, estabeleçam limites e horários para sua utilização.
Para que se possa identificar a compulsão é preciso estar atento ao comportamento da criança, observar pequenos indícios, como se ela atende a seu chamado para se sentar à mesa nas refeições, se respeita o horário de dormir, se cumpre às tarefas domésticas e escolares que lhes são propostas. E, além de observar e estabelecer os limites necessários, os pais devem buscar as causas que estão gerando a dependência e a compulsão. Se não conseguirem detectá-las sozinhos, devem procurar ajuda de um profissional qualificado na área da Psicologia Clínica que, além de diagnosticar o problema, poderá ajudar a criança a se conhecer melhor, a melhorar a sua auto-estima, aumentando as chances de estabelecer contatos sociais mais saudáveis. A terapia certamente auxiliará na redução de um eventual quadro depressivo, assim como possibilitará a eliminação do comportamento compulsivo e da dependência por ele gerada.
Margarete Zenero