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Decifra-me ou Te Devoro


imagens: tiago gutierrez

“Esperamos com impaciência que nossos filhos saibam exprimir-se verbalmente; encorajamo-los a falar como adultos, porque assim podem proteger-nos da verdade bruta que continuamente tentam exprimir pelo corpo. Sossegamos quando, enfim, consegue como nós fazer da expressão verbal um véu que esconde os verdadeiros desejos, que modifica os impulsos naturais, que domina as sensações. “Fale comigo. Diga o que há com você. Se você não falar, não consigo saber o que está errado”, repetem os pais enquanto o filho emite sinais corporais de perigo que lhes são imperceptíveis.”  Thérèse Bertherat

A. tem sete anos, o vejo duas vezes por semana. Vem de livre e espontânea vontade ter comigo. Chega sempre correndo, me cumprimenta e pede permissão para usar as “enormes” bolas suíças que tanto adora.  Em toda aula peço que se retire por alguns instantes pra meditar devido a suas atitudes desagregadoras e “deselegantes” - empurra os outros, grita, conversa nos momentos de silêncio, faz birra, desdenha minhas instruções, etc. - e no final de toda aula vai até mim, me abraça e diz um tchau entusiasta e alegre.
(Não consegue conter nem coordenar os impulsos que carrega. Quando peço atenção e foco demora pra se aquietar – ah! se soubesse o poder do silêncio e da observação – mas não por maldade ou mau caráter, muito menos por malandragem ou mesquinhez, ele simplesmente não consegue lidar com sua carga. Tudo bem que os programas que vê na TV e os jogos que joga no videogame estimulam a competitividade e a sacanagem para se dar bem, assumo a existência dessa influência, mas foco no ego indefeso como principal determinante da desconexão, pois sustento que o homem sempre busca equilíbrio com o meio, assim como todo mamífero e se ele não for frustrado na busca por essa homeostasia teremos a saúde.)

B., de doze anos, ao contrário de A. sabe manter silêncio, executa os movimentos com perfeição e disciplina. Falta-lhe espontaneidade que em A. é impulsividade.

C. e D., sete e oito anos, são amigos, estão sempre juntos e competem o tempo todo. Constantemente deixam de fazer os exercícios de forma correta para chegarem antes do outro lado da sala – fato que gera desgaste em suas jovens articulações e as reprimendas deste que vos fala. Adoram estar ali. Os pais quando querem os castigar, ameaçam deixá-los fora de uma aula.
E., sete,  é quieto, ladino, nunca me olha nos olhos sem minha insistência obsessiva. Começou a dar problemas no colégio e os pais o levaram até mim para que eu lhe instruísse na disciplina. Hoje parou de dar problemas no colégio e começou a dar problemas no Kung Fu, rs.

F., nove, é pacato, gordinho e “mole”. Se não o observo não faz um terço dos movimentos propostos em aula. E o pior, se acha esperto por ser preguiçoso. Os pais, já meio desesperados, esperam que ele acorde e se expresse mais, lute pelos seus desejos e impulsos no tatame. Mas ele, infamemente, se limita a fazer só o que gosta: as brincadeiras, rs. Quem sabe um dia dá o estalo!

G. e H., inseparáveis, ambas com doze, ainda vou entender como “pessoasinhas” tão lindas e bem educadas gostam do Jonas brothers. A indústria cultural marca mais um ponto.

I, J e K, os três com doze anos. Que dificuldade em se sentirem homens sem adotarem a postura da dureza. Ver isso neles lembra minha infância...  Quando faço uma roda e peço que passem amor para um lado e raiva para o outro só expressam a raiva com prazer, o amor lhes foi tolhido, impedido de ser expresso sem que paguem o preço alto do rótulo de gays, delicados, e os disparates que se diz nessas ocasiões. Mas é inebriante ver a potência que existe dentro deles. Futuros homens, quanto poder!

Quando contemplo a realidade que nos cerca penso... Como desconfigurar o machismo que afasta meninos e meninas?! Como dizer que um homem que só expressa raiva é incompleto e infeliz?! Como dizer que não importa chegar antes e sim aproveitar a corrida?! Como ensinar Kung Fu sem dar um golpe?!
Mágica!


Até hoje me debato para curar as feridas da minha infância. Um susto, um grito um pouco mais forte, uma traição de um adulto que me expôs ao ridículo, etc. Senti na pele como a displicência de um professor pode arruinar a estima de um ser humano criança. Como vivi uma infância turbulenta, sei muito bem o que tolhe a espontaneidade, a curiosidade natural e o prazer de viver, em outras palavras, desagrega e enfraquece um jovem filhote humano.

Conheço intimamente os climas áridos que secam qualquer raiz, que cortam a seiva da vida de nossos corpos e tiram o brilho de nossos olhos. Assim, estou existencialmente habilitado a lidar com tais sutilezas. Conecto os meus alunos com a terra, com seus corpos, com sua força e coração. Não permito que se tratem sem respeito. Meninos e meninas, magros e gordos, descoordenados e organizados, coloco todos como células do mesmo tecido, órgãos do mesmo corpo, água do mesmo copo. Pode cair de bunda, ser o último na corrida ou não conseguir fazer tal movimento, aqui, “na minha casa” ninguém ri de seu irmão. Sei que alguns não o fazem por medo ou falsa disciplina, por isso sempre lhes digo que a verdadeira disciplina vem de dentro, por vontade própria. Quando entendem que ali somos uma família, e que um ajuda o outro, e que assim é a melhor forma de viver, naturalmente, por inteligência, por insight, investem suas energias em outras atividades, seu prazer brota da soma e não da divisão. E damos risadas de brincadeiras em que ninguém é ridicularizado ou humilhado. De passatempos débeis já chegam as misérias da TV aberta.

Prezo sempre pelo prazer em aprender. E não grito com ninguém. Assim, quando um aluno que tem entre 7 e 12 anos faz algo que julgo inadequado, peço que se retire da sala por algum tempo. Às vezes perdemos quase três minutos de aula até que eles percebam a necessidade de fazer silêncio.

O Espaço do tatame é sagrado para mim. Foi assim que meu professor me ensinou. Pois a vida precisa de terra fértil para fluir, o espírito humano e suas forças ocultas se manifestam somente em determinado clima. O conhecimento passado de geração a geração por mais de mil anos...
“Para mim, pelo menos do modo como eu ensino, todo tipo de conhecimento significa, no final, autoconhecimento. Assim, quando uma pessoa me procura, não está me pedindo para ensiná-la a se defender ou como acabar com alguém; pelo contrário, ela quer aprender a se expressar por meio de movimento... O que estou dizendo é que ele me paga para lhe mostrar a arte de expressar o corpo humano... A coisa mais importante é: como eu posso, no processo de aprender a usar meu corpo, entender a mim mesmo?!

Em última instância, arte marcial significa expressar
honestamente a si mesmo...“ Le Jun Fan

Trato as crianças e os pré adolescentes que vem ter comigo como se fossem adultos – eles não sabem disso, rs - imagino homens e mulheres com trinta, trinta e cinco anos se lembrando das minhas reprimendas, brincadeiras, insistências em encaixar o quadril,  em olhar com honestidade, em fazer os movimentos com intensidade. Quando os encontrar, daqui a vinte anos, quero num olhar honesto ver os frutos da consciência corporal que tanto falei na infância. Sei que alguns só entenderão mais tarde, ou nunca, mas sei também que, sem que eles entendam ou gostem, terão um brilho nos olhos, uma percepção mais apurada da vida e uma intensidade rara fruto dos pés que se alimentam da terra. Nesse momento saberei que Kung Fu corre em suas veias!

“O Kung Fu chinês é uma arte subjetiva, espiritual, individualista, cujo fim não é a beleza estética, mas a harmonia pessoal com a Alma Cósmica.”

Mas vamos ao roteiro.

A primeira meia hora é livre - pro desespero dos pais que insistem em vigiar seus filhos -  sons e gestos somados às de mais vinte crianças da mesma idade. Dá pra imaginar o que acontece?! Algumas ficaram o dia todo sentadas em cadeiras de colégio. As observo de longe enquanto brinco com as mais novas. Neste momento ministro meus conhecimentos adquiridos em psicologia do desenvolvimento. Às vezes lhes aplico o golpe do amor incondicional – técnica milenar, secreta e poderosa que consiste em abraçar o adversário ficando coração com coração até aquecer o seu, mortal pra seres com o peito endurecido - noutras sou acometido de profundo sono e preciso de um travesseiro humano bem fofo para deitar minha cabeça, uma criança entre 5 a 8 anos serve perfeitamente; em dias mais “quentes”sou possuído por um demônio que mora dentro de mim e tento me alimentar de carne de crianças shaolins, principalmente dos dedões do pé e dos umbigos; teve uma vez que tentei roubar a cor dos olhos de uma saholinha, e também quase roubei a capacidade de amar de um apaixonado, e a de rir de outra arreganhada...

Arte é diferente de esporte assim como
gesto é diferente de movimento...

Alguns teóricos sustentam que nascemos sem uma alma e que com o desenrolar de nossas vidas vamos nos apropriando de uma, encarnando aos poucos nesse corpo, nesse plano. Como psicólogo, leio essa frase desta forma: nosso ego vai aos poucos traduzindo a linguagem corporal e integrando a mente com o corpo e o espírito. Quando crianças somos o corpo sem a mente, quando velhos somos a mente sem o corpo. Busco ser minha mente e meu corpo...  E o chão, e o céu... E o amor e a raiva...
Pra começar a aula, fazemos silêncio absoluto, imobilidade corporal... Como raízes de árvores, afundamos os pés no chão em busca de alimento. O cumprimento é um mantra executado simultaneamente por todos que nos leva para uma jornada interior... Que eu enquanto professor possa proporcionar o caminho que nos leve rumo ao entendimento de que a arte marcial pode alimentar a alma, dar profundidade e significado... Que eles consigam, sem precisar de mim, em qualquer área de suas vidas, buscarem a excelência e a honestidade...
Assim serão bem vindos em todos os lugares que prezam por um mundo melhor...
Luz e amor!

Dante


P.S. Alguns aparecem neste vídeo,
espontâneos, correm pelas entrelinhas e brilham:   

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