Dentro de seus mais de vinte anos de prática médica como orgonomista, Elsworth F. Baker estudou diretamente com Reich por mais de dez anos e foi designado por este para escrever o método da terapia reichiana. Abaixo, uma interessante citação de seu livro “O Labirinto Humano”, págs. 39 – 41.
“O plano básico para a inibição do funcionamento natural pode começar a ser realizado antes mesmo de o bebê nascer, por meio de um útero espástico que iniba sua movimentação. O próprio processo de parto poderá ser longo e difícil, com anestesia, drogas (1) e fórceps; o próprio nascimento poderá ser mecanicamente retardado para aguardar-se a chegada do doutor. No momento do nascimento, o meio ambiente que recebe o recém nascido é principalmente hostil. Para início de conversa, é frio quando comparado ao calor uterino. A seguir, o bebê é estapeado para que comece a respirar por si, pendurado pelos pés e aguilhoado nos olhos com uma medicação tida por conveniente.
Isto é apenas o começo, porém. O recém nascido é separado da mãe após nove meses de um contato íntimo e cálido, sendo colocado sozinho num berço com cobertas ásperas, freqüentemente sob luzes bastante intensas brilhando acima de sua cabeça impiedosamente 24 horas por dia. A seguir, o regime de horário certo para a alimentação (2) vindo de um bico de seio frio e insensível da mãe neurótica ou da mamadeira inanimada. O meio ambiente é barulhento e caótico; as enfermeiras muitas vezes rudes e descuidadas. Colocam-se luvas nas mãos dos bebês de modo que não consigam se arranhar, nem chupar seus polegares, o que talvez fosse preciso para se satisfazerem. É penoso vê-los tentando. São também embrulhados muitas vezes de um modo tão apertado que quase parecem um pacote, tendo então limitados os seus movimentos. O bebê é bloqueado em todos os sentidos com os quais poderia entrar em contato com o seu meio ambiente.
A medicina clássica nos ensina que os bebês não focalizam os olhos durante seis semanas e que sua respiração é irregular e entrecortada pelo fato de sua medula ainda não estar desenvolvida. Os bebês saudáveis, porém, focam os olhos assim que nascem (3), e conseguem acompanhar com os olhos uma pessoa que se desloca pelo quarto; seu ritmo respiratório vai para baixo num movimento inequívoco que atinge a pélvis, produzindo o reflexo do orgasmo. Os bebês nascidos em hospital, nas atuais condições, jamais serão capazes de se virar em poucas horas; os bebês sadios, nascidos de parto natural, conseguem-no. Rapidamente conseguem sua auto suficiência quanto a movimentos e entretenimento. Frente, porém, ao ambiente comumente adverso a este tipo de desenvolvimento, este não ocorre. Ao contrário disto, o bebê se contrai, o peito para de mover-se livremente, o diafragma se bloqueia, os olhos não entram em foco, a pele torna-se fria e azul. Reage inicialmente com raiva (choro raivoso), depois com choramingos e lamúrias para exibir toda a sua miséria. Nesse instante, a circuncisão praticada nos meninos faz com que seu pênis também se contraia e permaneça azul e frio. Vi alguns ficarem nesse estado por dois anos.
Depois desse início bastante eficaz, a vida é posteriormente mais bloqueada ainda pelo treino de banheiro iniciado precocemente, que, em última instância, torna a criança mais submissa a idéia de abandonar seus impulsos masturbatórios e seus desejos sexuais. O controle esfincteriano não é possível antes dos 18 meses de vida; portanto, o treino precoce de banheiro (algumas mães o iniciam aos quatro meses) demanda contrações, principalmente dos músculos das coxas, nádegas, soalho pélvico, além de retração da pélvis e de uma inibição respiratória suplementar. Este é um exemplo bastante conhecido do processo de encouraçamento, na medida em que diminui efetivamente a expressão emocional natural, além das sensações de prazer no nível da pélvis.
A couraça é produzida pelo medo da punição e pelo senso de culpa (não toque nessa imundície) instilado na criança. Este tipo de educação é rotineiro e amplamente aceito, não incluindo as diversas modalidades de sadismo praticadas pelas babás e mesmo por algumas mães. Um paciente que tive havia sido obrigado a comer o conteúdo de sua fralda por tê-la sujado; ouve um outro cujo nariz foi esfregado na fralda suja. Por cima disso, há as medonhas ameaças quanto aos resultados da masturbação. Sendo assim, a descarga é impedida, de modo que a energia se acumula e a tensão aumenta. Os impulsos sexuais e outros impulsos agressivos, ternos e suaves a princípio, tornam-se rudes e violentos (4). Esta é a origem do sadismo sexual que a sociedade acertadamente quer abolir, mas através do método errado, ou seja, intensificando a repressão.
Devemos recordar que originalmente a criança não é estúpida, mas aprende a sê-lo. A raiva desenvolve-se em conseqüência das frustrações, devendo ser reprimida a seguir. Havendo então apenas uma pequena descarga da energia biológica, é imperioso ao indivíduo continuar a encouraçar-se cada vez mais eficientemente, chegando, enfim, a comprometer toda a sua musculatura. Sente uma tensão intensa e uma ansiedade inexoráveis. Essa couraça é eficaz até um certo momento, pois de súbito irrompem os desejos sexuais reprimidos couraça afora, sendo desviados de imediato através da formação reativa. Perde-se, enfim, a espontaneidade, a criança torna-se limitada, mecânica e confinada às rotinas diárias de seu cotidiano. Em resumo, a causa primeira da neurose é a inibição moral e sua força propulsora, a energia sexual insatisfeita”.
Em seu livro “O Assassinato de Cristo” Reich
tem dois pensamentos que fecham este artigo de Baker:
"É o apagar da chama da vida em cada recém-nascido que cria as condições que conduzem infalivelmente à coroação de Cristo com uma coroa de espinhos e às humilhações de que ele foi objeto. O Zé-Ninguém continua a cometer tais abjeções em todo o lugar, seja num campo na Sibéria ou em qualquer Hospital Psiquiátrico Estadual nos Estados Unidos. " p. 209
“A cultura e a civilização ainda não existem. Estão apenas começando a ingressar na cena social. É o começo do fim do crônico Assassinato de Cristo." p. 308.
Dante Moretti
1. Cf. Gerald Stechler, “Newborn Attention as affected by Medication during Labor”, vol. 144, págs. 315-317, Science, 17 de abril de 1964. Stechler descobriu que a atenção visual dos recém nascidos diminui proporcionalmente à ingestão de drogas por parte da mãe durante o trabalho de parto.
2. Bruno bettelheim, da Orthogenic School of the University of Chicago afirma: “As refeições determinadas pelo relógio são potencialmente tão destrutivas pelo fato de roubarem aos bebês a convicção de que foi seu próprio choro que permitiu a satisfação de sua fome”. Todas as suas tentativas futuras de atos motivados a partir de dentro sofrerão a influência do bem ou mau resultado dessa atividade, bem como da resposta que obtém.
3. Cf. Robert L. Frantz, “Pattern Vision in Newborn Infants”, Science, 19 de abril de 1963, págs. 296-297. O autor, testando bebês com dez horas de vida a cinco dias, descobriu q seus sujeitos demonstravam uma capacidade inata para perceber a forma. Peter Wolf e Burton L. White, em seu artigo “visual Pursuit and Attention in Young infants”, Journal os the American academy of Child Psychiatry, vol. 4, nº 3, julho de 1965, afirmam uma opinião semelhante: “ este estudo se dedica a relação entre o estado organísmico e o acompanhamento visual no recém nascido. Baseia-se na observação dos bebês que desde o seu nascimento acompanham um objeto que se move... mas, para poderem acompanhá-lo, devem estar num estado de atenção calmo, semelhante ao estado adulto de atenção... Um objeto que se move pode ser seguido apenas pelos olhos... ou por uma rotação coordenada olhos-cabeça”.
4. Reich distinguia entre os impulsos naturais primários e os impulsos bestiais secundários, que devem atravessar a barreira formada pela couraça.