Dia de fúria? É muito forte. Momentos de fúria fica melhor. Estamos sofrendo muito por causa de medos. E nem estamos computando os medos imaginários, como Jorge Luis Borges diz em seus versos no poema Instantes.
Doenças nem é bom falar. Estamos vivendo num ambiente de pavor generalizado, como criança que tem medo de escuro. Até a natureza anda enfurecida. Do nada aparece um revólver na nossa cara.
Nossa felicidade anda muito fragmentada. Muita informação dá nisso. Muita liberdade dá nisso, Muita impunidade dá nisso.
Cadê aquela vida calma, de papo lento, do namoro de um parceiro só. Onde está a visita do compadre e da comadre?
Andamos medrosos e nervosos. O perigo está até em nossa mesa. Parece que não sobrou nada gostoso para a gente comer. Tudo que é bom não pode: feijoada, lingüiça, carne de porco, costela, pudim. Tudo que comemos nosso anjo da guarda dá uma espiada: isso sim, isso não. Beber é a mesma coisa. Só água, e com cuidado, pode estar contaminada. Vinho, bebida dos deuses? que nada! Só um gole.
Desse jeito, é claro que a fúria anda solta. Cigarrinho de palha, joguinho do bicho, cassino, bingo. Acabou o que era doce.
Nem mais a zona existe, que chegou a ser o cartão de visitas de algumas cidades. Agora está tudo meio misturado. Os homens estão com medo e confusos.
À mesa acabou a farra; só estamos liberados para comer o que é verde, amarelo, vermelho; ou seja: jiló, alface, beterraba, chuchu, abobrinha, cenoura, pepino, quiabo, manga, banana. Ara! Chega!
Carne? Ah! Só se for daquela fininha, sem gordura, e de frango. Peixe só assado. Café com açúcar nem pensar.
Em momentos de fúria as pessoas são um perigo. Nossas válvulas de escape estão acabando. As religiões não dão conta. O futebol acabou de vez. Só existe o nome do time e o distintivo. A vitória é detalhe.
Acho que os nomes feios surgiram por isso. Pelo menos ainda existe alguma coisa para a gente extravasar: falar nome feio. Nos estádios, quem não sabe nenhum nome feio, apareça por lá.
Um palavrão na hora certa faz um bem danado. Nunca xingou? Fala sério...
Não dá para ficar a vida inteira engolindo sapos, não dá. Quando não conseguimos dissipar a angústia a gente acaba ganhando – sabem o quê? uma bela arritmia, depressão e infarto.
Tem dia que parece que tudo dá errado. E não é para menos.
Michael Douglas, no filme Um dia de Fúria, retrata a vida do cidadão americano pacato, trabalhador e estressado. A esposa o abandona, a filha namora um desajustado, a casa está hipotecada.
Um dia o trânsito emperra. Ele não aguenta. Pega sua maleta e desaparece, e seu carro fica no meio da rua.
Até o mais calmo cidadão tem seu dia de fúria. Não existe idade nem sexo nem profissão nem hora para explodirem episódios de insanidade.
Eu estudava numa escola rural em Santa Veridiana. Tinha 7 anos. Primeira série. A professora, Dona Antônia, era um doce, paciente demais. Uma santa.
Escola de roça era assim. Havia três séries: 3ª, 2ª e 1ª. A primeira tinha três seções: A, B e C. Os alunos da seção A eram mais adiantados e os da seção C praticamente iriam repetir o ano.
Um dia, depois do intervalo, estávamos fazendo folia, muita folia. Silêncio zero. Ela implorava, implorava, e esperava. Nada.
De repente, lápis, canetas, compassos, cartilhas, caixa de giz voaram sobre nossas cabeças. Teve objeto que passou pela janela.
Aí sim! Ficamos quietinhos, quietinhos. Dava para ouvir o vento nas folhagens da mangueira.
Nossa querida professora não disse mais nada. Baixou a cabeça, e chorava!
Ah! Como gostávamos dela! Aluno da roça não tem maldade. Brinca por brincar. Zoa por zoar.
Um aluninho que se sentava atrás de mim, sempre de paletozinho marrom, levantou-se; lenta e timidamente foi até à mesa da professora. Sussurrou. Era pedido de desculpas.
Dona Atonia ficou mais comovida. Abraçou o menino. Os dois choraram!
Treze anos depois, em Tupi Paulista, numa cidadezinha da Alta Paulista, tive também meu dia de fúria.
Ninguém me abraçou, mas no dia seguinte ganhei de meus alunos uma melancia e uma enorme abóbora.
Meu coração foi a mil!
Plinio Montagner