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Down the Rabbit Hole



No labirinto das emoções humanas a vida pode se tornar algo completamente desconhecido, até bizarro. Quando aprofundamos nossa análise acerca das influencias das emoções em nossas atitudes, nos deparamos com determinantes ocultos.

Doutor Freud disse, ao cunhar o termo inconsciente, que “o homem já não é o senhor dentro de sua própria casa.” Somos determinados por eventos e fatos que, às vezes, desconhecemos e discordamos. E isso é estranho, sinistro. Pois o animal humano pensa ser o dono de seu destino, o dono de seus pensamentos. Mas a nossa vida pode estar muito além do nosso controle.

Um fato ocorrido na infância, algo corriqueiro, sem muita importância, por exemplo, o costume diário dos pais de brigar, pode determinar para o resto da vida um modelo de relacionamento a ser seguido. Se os genitores não se amam, e vivem juntos com o objetivo de criarem os filhos ou de enriquecerem, essa forma de lidar com o amor pode ser passada como a correta para a prole. Inconscientemente, a forma de expressar e viver o amor é passada de pai pra filho.

Se o casamento não é calcado no amor, e, mesmo assim, os pais vivem juntos, e brigam, criam situações pesadas e odiosas, carregadas de sentimentos represados, dizem para a criança que esta é a forma de viver o amor. Atitudes falam muito mais que as palavras.

Já é de conhecimento leigo que as experiências vividas na primeira infância, por serem as mais intensas, por estarmos desprovidos de traumas e couraças, são as mais fortes e marcantes. A forma como amamos a primeira vez nos traça caminhos, até o estímulo nervoso, as sinapses nervosas, os neurotransmissores, hormônios, enzimas e receptores utilizados criam um “caminho”, uma memória, um “traço” de caráter, um jeito, um estereótipo do que é e de como se vive e se sente o “amor” (o sistema nervoso central tem sua maturação fisiológica do nascimento aos sete anos de vida).

Com um exemplo destes, profundamente enraizado, antes da articulação do discurso verbal, passado pela falta de um abraço, pela falta de um olhar amoroso, pelo constante sarcasmo e ironia, inconscientemente, se adquire um hábito, um jeito, se aprende, por experiência, a viver emoções, descarregá-las e reprimi-las, através de movimentos e sons, gestos e atitudes. Uma espécie de economia da libido, economia dos impulsos.

Constrói-se, assim, uma lembrança, um caráter, uma forma de sentir o coração, uma forma de olhar, de buscar e de fugir, de abrir e de fechar o peito, de pisar, de postura, de respirar.

Se, ao observar o ambiente, a criança humana sente o peso de duas pessoas em choque, que não se amam, que se suportam, é normal ela tentar fugir desse contato, posto que lhe é desagradável. Mas, como é um estímulo constante, ela precisa aceitar essa energia, esse leite, esse alimento, e se conformar, se adaptar. Pois sua vida depende disso. Ao fazê-lo, age, se mexe, respira e introjeta essa forma de amor. Sua primeira experiência com esse sentimento.

Se, ao buscar o amor dos pais, com seu peito orgânico e aberto, fluido e sensível, sente frio e encontra corações amordaçados em peitos rígidos, amargura e sofrimento, e a incapacidade de abertura, é natural que ela não desenvolva nem expresse mais tais sentimentos, pois naquele solo eles não são aguados nem adubados, o que nasce ali é a flor do ódio, da mentira e do desgosto. Seu calor do coração não é aceito, não encontra ressonância e precisa ser descarregado/protegido de outra forma (uma couraça se estabelece com esse fim).

Se, ao olhar para os olhos de seus pais, vê desgosto, raiva e distanciamento, com muita dificuldade vai querer olhá-los de novo. Seu olhar se tornará distante e frio com todos os outros seres humanos.

Se, ao propor, espontânea e naturalmente, uma brincadeira, sente que é um fardo, o motivo pelo qual os pais estão juntos, se sente as mãos dos pais frias e duras, facilmente não buscará mais o contato físico e alegre com eles. Com ninguém. E todo esse impulso, toda essa energia de vida precisará ser descarregado em outro fim. (Sublimação ou perversão).

Se, ao ser espontânea e vibrante, é rechaçada e reprimida, com dificuldade repetirá tal atitude. Assim, respirará menos (para controlar os impulsos com mais certeza), e será mais doente, menos vital e vibrante.

O contrário é exatamente igual.

Se amada por pais em sintonia, se encarada com olhos sinceros... se fruto de amor e prazer...

Assim, hoje, quando o adolescente se rebela contra o casamento, ele, determinado inconscientemente, na verdade, diz que odeia seus pais e a forma como eles lhe ensinaram a viver o amor. Quando a adolescente aparece grávida, ela, filha de pais perversos quanto a sexualidade (que usam o casamento como um negócio e fazem do seu sexo prostituição),  representa a falta de contato com a espiritualidade da sua sexualidade. Quando gordo (a),  temos a fuga do poder da sensualidade e beleza do corpo. E quando o adulto não consegue amar a esposa e a esposa não sente prazer no amor vemos a falta dessa educação, desse exemplo, dessa vivência.

Tudo que não foi vivido, resolvido, trabalhado e expressado fica dentro de nós esperando seu momento. Se, quando crianças, um impulso ficou guardado, ele se encontra guardado até hoje. Se, ao buscar o amor não encontrado cristalizou-se o peito, esse sentimento só encontrará vazão quando o conflito for resolvido, solucionado, em outras palavras, só se poderá amar de forma livre e espontânea, genuína e honesta novamente, depois de se ter liberado esse dique, essa repressão, esse medo, essa falha, essa dor que o peito guarda. Falo de tristeza, choro, mágoa, impotência e desespero, raiva e medo... Emoções “negativas”, o que não queremos ver nem sentir. E digo que elas estão todas presentes, digo que essa criança machucada existe até hoje dentro de nós, nos determinando.

Não importa quanto tempo faz, no mundo das emoções, cem ou dez anos são insignificantes. Não importa quanto dinheiro se tem, no labirinto das emoções humanas, um olhar vale muito mais que muita grana.

 

 


Dante Moretti