Era uma casinha de taipa, coberta com folhas de babaçu, junto a uma antiga estrada boiadeira. Encravada no pé da serra, numa curva onde o rio das araras desaguava no rio dos peixes. Resistia ao tempo com bravura, talvez por cumplicidade e por romantismo. Ao redor tinha um belo arvoredo onde os passarinhos cantavam e procriavam na primavera. Neste lugar paradisíaco, morava um velho boiadeiro por nome Cícero Romão mais conhecido por “Veio Ciço”.
Caboclo forte e sacudido, beirava oitenta anos. Possuidor de grande espiritualidade, recebia a todos com um largo sorriso e muitas histórias para contar. Numa noite escura de verão, parei ali e pedi pouso, pois a chuva forte e o avançado da hora me impediram de seguir viagem. Corria o ano de 1975, e eu era um recém formado com apenas vinte e três anos. Para enfrentar o Nortão de Goiás, eu tinha um fusca, que apesar de valente, me deixava na mão de vez em quando, por isso a cautela em só prosseguir viagem no dia seguinte, pois a próxima cidade ficava a uns cem quilômetros dali, por estrada de terra.
O velho goiano convidou-me para jantar, não sem antes me oferecer uma bela lapada de cachaça. Confesso, ter sido o trago mais gostoso de toda minha vida, tinha um sabor de amizade, boas vindas e muita saudade - tanto minha como dele. Um bucolismo indescritível reinava neste lugar. Antes do jantar ele empunhou a viola pendurada na parede e pediu licença para cantar uma música em homenagem à estrada boiadeira, onde viveu praticamente toda sua vida. Acendemos o candeeiro e uma suave música brotava de sua aveludada voz, tendo como fundo as labaredas de um fogão à lenha. “Uma casinha junto ao estradão, um certo dia eu parei ali, vem minha velha vamos recordar, quantas boiadas eu já conduzi, não é de ouro meu berrante não, mas para mim ele tem mais valor, porque foi ele quem me deu você, e foi você quem me deu tanto amor.”
Versos tristes para uma história verdadeira - disse-me entre soluços. Porque o senhor chora? - indaguei. Aí então, me contou sua breve história.
Passei minha vida viajando por esta estrada conduzindo boiadas, do sul para o norte e do norte para o sul. Quando passava neste local, onde estamos agora, eu fazia uma parada para ver Noquinha, uma formosura de mocinha que anos mais tarde veio a ser minha única esposa.
Viajando muito e sem prazo para voltar, eu nunca quis compromisso sério e prometi-lhe casamento quando largasse de lidar com boiada.Foram quase vinte anos de espera.
Construímos uma família e ficamos morando aqui no encontro das águas, por alguns poucos anos. Ela era tudo para mim e também muito mais nova, uma menina, uma pintura de mulher. No nascimento de nosso terceiro filho, por falta de recurso, ela partiu para a glória do senhor. Senti demais da conta, sua passagem e confesso quase ter morrido junto, porque o nosso amor era puro e verdadeiro.
Fiquei sem condições de educar as crianças e pedi para um fazendeiro amigo criá-los e educá-los na cidade. Hoje são doutores como o senhor, um é médico e o outro advogado. Eles sempre vêm me visitar e fazem muita força para eu morar com eles na cidade, mas confesso que não tenho vontade, pois quero terminar meus dias por aqui mesmo, acho que nunca me acostumaria viver em outro canto.
Continuei a ouvi-lo com muita atenção e bastante emocionado. Pedindo licença levantou-se e trouxe -me sua conservada e completa tralha de peão, na esperança quem sabe um dia, do tempo voltar. Após tocar seu berrante com maestria contou-me da saudade da falecida esposa, dos filhos doutores e do saudoso tempo de boiadeiro. Disse-me contemplativo: - O progresso destruiu meu sonho, passo os dias vendo caminhões boiadeiros. Onde está o grito da “peonada”?, a poeira levantada pelos cascos da boiada e o toque do berrante? Tudo se acabou. É nesta solidão que a inspiração brota no meu peito, e passo horas cantando as modas de viola que aprendi na lida de gado, ajudando assim, o tempo passar.
Antes de dormirmos nos abraçamos e soluçamos juntos. Parti no clarão da aurora, antes dele acordar para não me emocionar novamente. Nunca mais passei naquela estrada e também não pude saber qual foi o final desta história. Seu berrante e sua viola calaram-se para sempre mas a saudosa estrada guardará para a eternidade o testemunho de um amor puro e verdadeiro e o toque de seu berrante solitário, ecoando pelo sertão afora.
E VIVA A PÁTRIA!
Osvaldo Piccinin