Março de 2005, ele ficou 28 dias internado. Tudo começou com uma cirurgia de rotina nesta fase pós-radioterapia: raspagem da próstata. Estava muito grande, impedia a urina de passar sem sofrimento. Mas sua válvula aorta, que fora substituída por uma peça de metal há cinco anos, reverberava em alguns agravantes. Devido a pressão alta, e aos remédios que tomava, era extremamente contra indicado anestesia geral e, pela alta quantidade de carne vermelha que ingerira a vida toda, as artérias, com suas paredes já pouco flexíveis e obstruídas, o obrigava a cuidar para que o sangue não engrossasse demais (pois poderiam entupir – o que aumentava muito a chance de acidentes vasculares), e as coisas complicaram-se um pouco mais. Hemorragia, inflamação, fraqueza e uma depressão. Nada que os remédios e o ambiente de resort da clínica onde estava não pudesse amenizar. Afinal: “Trabalhei a vida toda para descansar na velhice!”.
Assim estava o senhor Susin. Homem forte e rígido, trabalhador e guerreiro, versado nos assuntos do mundo, mestre na arte dos negócios. Burguês (e burguesia é diferente de nobreza), pai de família, honesto, com o nome limpo e os filhos formados. Uma pessoa que nunca conseguiu pedir carinho, ajuda. “Não lembro de ter sido abraçado pelo meu pai!”
Italiano, católico apostólico romano, aprendeu a aceitar o sofrimento com prazer, com a sensação de serviço cumprido. Nesta perspectiva o sexo (sempre desconectado do coração), o prazer, o riso e o gozo são vistos como passageiros, hóspedes não muito bem vindos, quase perversos, diabólicos. “Estamos aqui para sofrer mesmo, pagar os pecados de Adão e Eva; e só no céu, ao lado de Deus, seremos realmente felizes!” Teocentrista!? Não. Mas encontrou nesta ideologia o lastro para aceitar e suportar seu sofrimento, os amores não vividos, os desejos engolidos, a agressividade reprimida, o medo da vida...
Como lhe dizer que é ficando doente que encontra a única forma de exprimir sua carência, sem agredi-lo?! Como fazê-lo entender que encontra nos médicos, nos remédios, na cama do hospital, nas ligações dos familiares e amigos o carinho e a atenção que não tem coragem de pedir!? Como tirá-lo de um labirinto sinuoso e doente que ele mesmo criou para se proteger?!Como lhe ensinar a chorar!? A sentir?! Como lhe explicar que um homem pode ser sensível sem ser gay?!
Pelas idéias eu sabia ser impossível. 69 anos de condicionamento. Por perguntas inteligentes, menos. Analisar o inconsciente na ordem em que ele aparece!? Também não. Ele entendia analiticamente sua dinâmica. Interpretava seu Édipo mal resolvido, sua questão com as figuras de autoridade. Leu os best sellers da psicanálise, trazia seus sonhos já analisados sem que eu pedisse. A psicanálise clássica não resolveria sua questão em menos de dez anos e ele não tinha este tempo. Veio a terapia coagido pela família. Precisa mudar, e não via necessidade. No máximo, com uma boa transferência positiva, se tornaria meu amigo, confidente, e não acho que essa seja a minha função eticamente falando. Terapia para o resto da vida, no meu ver, tem outro nome. Mas vamos a ela.
Após quatro meses de trabalhos, um encontro por semana, e após o entendimento psicanalítico de sua problemática, sua rigidez saltava aos olhos, era inegável que ele, como inimigo de si mesmo, se negava a ter prazer, a ser espontâneo. Uma inversão de valores naturais que dizia que liberar seu corpo era dar voz ao demônio, e que reprimi-lo era ser santo. Essa era a ordem natural das coisas. Para qualquer dificuldade os médicos estariam à disposição, desde que ele tivesse dinheiro para pagar (por isso muito trabalho, e muito sofrimento, e muitas doenças, e muita fé, e muitos médicos. Aleluia!).
Apesar da válvula que levava no peito, do câncer e dos remédios para a “pressão alta” Acho tão significativo esse rótulo: a pressão emocional interna é tamanha que o sangue quase estoura as paredes dos vasos sanguíneos devido a falta de descarga/ expressão.), ele não aceitava com facilidade a necessidade de rever seus valores. Um dia, ao entrar em contato com o ódio pelo pai, disse: “pai é pai!”. “Como assim!?”, perguntei. “Não importa o que ele fez, não se pode sentir raiva do próprio pai.” Falou com autoridade. Perguntei-lhe se estamos na posição de escolher nossos sentimentos baseados num ideal?! Se podemos escolher o que sentir?! Mas falei ao mestre na arte de reprimir os sentimentos. Seu peito, uma armadura de cavaleiro medieval, era feito de pedra, embelezado e esculpido; suas cicatrizes e suas magoas eram suas medalhas, que ele exibia com soberba. No universo das contenções ele era o rei, e eu, um mero filósofo. E um filósofo que ofendera seu ego. Ao lhe mostrar seu ódio recalcado eu lhe enganara, lhe trairá. Ele sempre o escondeu e ninguém havia rompido tal couraça.
Primeiro ele ficou com medo, depois com vergonha; em seguida veio a raiva, e eu fui o receptáculo desta raiva. Recebi sua “transferência negativa” (a raiva) com aceitação e alegria. Fato que o irritou ainda mais. Estávamos no sexto mês de terapia. Ele faltou três sessões após este “incidente”. Quando voltou, nem tocou no assunto. Não recordo qual foi a desculpa, uma viagem de negócios, algo assim. Ambos sabiamos o que acontecera e ambos sabiamos que certas coisas são difíceis de mudar, mesmo querendo, mesmo entendendo que nos é nocivo. Mudar de vida agora seria dizer que durante 69 anos ele viveu errado. Era demais, eu entendo. E sentia sua agonia. Via-me como um inimigo íntimo, que, ao mesmo tempo aceitava seu coração e lhe tirava as ilusões. E que coração machucado, que ilusões primárias.
Quando trabalhávamos o prazer, como um termômetro, eu media o quanto desse “néctar” ele suportava. Quando demais, um pouquinho de rigidez era retomado. Rapidamente ele aprendeu a se sentir, a perceber o quanto de prazer suportava. É interessante notar que o prazer pode ser tão ou mais insuportável quanto o desprazer. Geralmente pensamos que só o desprazer nos é áspero, habitual engano. Na sua última sessão, me deu um forte abraço. Hoje, um ano depois, o encontro na rua de vez em quando. E, em silêncio, que risada interna compartilhamos!?! Que brilho nos olhos! Que gratidão mútua!
Acariciar uma fera, um animal acuado dentro de si mesmo, é uma arte. Rara habilidade... Aprendi muito. Em muitas das vezes que me vejo rígido, estóico, me lembro dele e relaxo com longos suspiros. Nestas horas um riso interior surge em mim, uma força que inebria, arrepia... Que universo complexo pode ser um ser humano... quantos labirintos, quantas curvas sinuosas, sinistras... e quão belo... adoro o contato de coração para coração... adoro a espontaneidade, o fluxo livre de pensamento, sentimento e ação...
Dante Moretti