III. Parte
ALMA DE UM POVO
por Jahyra Boucault Arruda
I. Parte: A NATUREZA
Piracicaba...Século dezessete
Sertão bruto
Raio de lua
Brincando sobre densas frondes.
Lágrima de orvalho cristalina
Clarão de luar
Iluminando
O vasto manto de floresta.
Interior de selva
Onde se alteiam
O jequitibá frondoso e a colossal peroba
O guarantã, o ximbó
O cedro e a caviúna
A figueira bravia e o pau ferro.
Retilíneas e esplêndidas palmeiras
E o majestoso ipê
Derrubando cores pela mata adentro.
É preciso voltar.
É preciso entrar – no âmago da história.
Para enaltecer essa rica e infinita flora.
Templo de divindade
Altar da natureza
Em cujo seio vibra
A emoção primeira
De um Deus que a criou.
Piracicaba...
Selvática, balsâmica, grandiosa e bela.
Piracicaba...Longínqua...
Perdida
Na infância nebulosa
Da terra, adolescente.
Mundo verde, primitivo
Envolto
Em misteriosa névoa de neblina.
Beirando o Rio Piracicaba...
Árvores e arbustos
Profusão de verde
Em todas as gamas desta cor
Debruçam n’água
Seus cabelos de ouro e prata.
A luz das primeiras estrelas
O rio é lindo
Do que o próprio sonho.
Águas que gemem
Queixosas e vagas.
Lá em cima...
Rumores confusos e incertos de mil ecos
Ressonantes, turbulentos
Como feras enjauladas.
Despencando prateadas
Ao impacto das pedras
Gritando
Bramindo
Espumando pérolas.
Lá em baixo...
Adormecendo plácidas
Serenas
Doces, como celeste e divinal harpejo.
Águas do Rio Piracicaba!
Caprichando nados
Mendís, corumbatás
Piracanjuvas
Cascudos e dourados
Travessos lambaris
E colossais pintados
Tantos peixes mais
Piracicaba – onde o peixe para.
Indivisível cenário
Árvores
Debruçando n’água
Penteando ao vento
Os seus cabelos verdes.
O espaço inteiro
Azul, rosa e lilás:
Céu Piracicabano
Segrega aos ventos
Misteriosas frases.
Aves. Coloridas Aves
Gritos selvagens de mil pássaros
Em melodiosos hinos
Erguem concertos
No silêncio
Estático dos ermos
Nos ermos, no espaço, nas colinas
No espaço azul
Onde as nuvens se enovelam
Em formas fantásticas
Na aurora, no horizonte e na amplidão.
Lá em cima – colorido, poético é o céu.
Cá em baixo
O rio
A contemplar abstraído
O infinito
Azul marinho e prata
Do inigualável
Céu crepuscular.