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O herói do nosso tempo é o homem viciado em sensações

Alexandre tira a gravata e entra no recinto com suas roupas folgadas, silêncio absoluto. O professor bate a palma, todos se viram e em uníssono repetem o cumprimento. Em menos de um minuto seu corpo está aquecido, as conexões nervosas que ligam sua percepção sensorial a seus instintos são ativadas. Seu corpo vibra. É dado o sinal, todos se voltam para ele e formam um círculo humano ao seu redor, braços entrelaçados, entusiasmo e euforia focados num único objetivo: não deixá-lo sair deste círculo. Estimulado pelos companheiros e pelo instrutor, Alexandre luta para sair, quando se dá conta, entre gritos e gemidos, suado da cabeça aos pés, entre movimentos espontâneos e espirais, já está fora. Passaram-se quase cinco minutos. Cinco preciosos minutos nos quais ele ficou sem pensar em Débora, sua esposa, ou ex-esposa. Ele ficou o dia todo pensando nela. No trabalho estava desatento, relapso. No almoço, sem fome. No caminho, triste, meio morto, desconectado. Mas agora, no tatame de sua arte marcial, hum... A adrenalina, o calor de seu sangue, as batidas de seu coração. Ali ele encontra a unidade entre pensamento, sentimento e ação e se deleita no êxtase do momento. “Nesta noite conseguirei dormir com certeza”.

Alexandre é uma das muitas pessoas que precisa de momentos agitados, apreensivos e tensos, para descarregar suas tensões, para encontrar alívio de suas contradições. Muito parecido com Débora.

Ela chega aparentando calma e controle. Bem vestida olha para frente, encara nos olhos. Mulher fina e elegante, andar gracioso. Doutora em genética. Cumprimenta os colegas e espera silenciosamente as instruções do terapeuta sentada em lótus. Hoje, sétimo encontro do seu grupo de terapia corporal, ela e seus dez parceiros trabalharão a agressividade. O exercício consiste em ser provocado com gestos e agressões verbais até o limite e, no momento propício, com consciência e com olhos nos olhos, devolver todos os insultos através de um tapa; que, explicado passo a passo pelo coordenador, um psicoterapeuta corporal, deve ser dado de “dentro pra fora”, ou seja, quando Débora sentir realmente vontade, quando seu corpo transbordar essa raiva, esse ódio, quando seu sangue lhe subir aos olhos. Caso contrário, se o tapa for teatral, se for falso, repete-se o exercício. Pois seria um sinal de que Débora não consegue entrar em contato com sua raiva... Mas ela consegue, imagina sua mãe ao executá-lo, e sustenta que somente devido a este trabalho consegue abraçar a senhora Célia com amor como nunca antes.

Fatos intrigantes e reais que nos mostram a complexidade da vida humana. Pode um tapa causar alívio?! Pode um embate corporal desfazer nós!? Nos casos acima sim. Quando saímos do padrão, da rotina, nosso cérebro precisa funcionar mais. Quando viajamos para lugares desconhecidos, quando sentimos emoções nunca antes vivenciadas, quando precisamos dar respostas a perguntas novas, cria-se a necessidade de total presença no aqui agora, no momento. Nas palavras de Fritz Perls, fundador da Gestalt Terapia:

”Se não sabemos se vamos receber aplausos ou vaias, nós hesitamos; então o coração começa a disparar, e toda a excitação não consegue fluir para a atividade, e temos ”medo de palco”. Assim, a fórmula da ansiedade é muito simples: a ansiedade é o vácuo entre o agora e o depois. Se você estiver no agora não pode estar ansioso, porque a excitação flui imediatamente em atividade espontânea. Se você estiver no agora, você será criativo, inventivo. Se seus sentidos estiverem preparados, e seus olhos e ouvidos abertos, como em toda a criança pequena, você achará a solução.”

Mas para não dizer que não falei das flores, é de conhecimento dos profissionais da área da saúde, que muitos de nós somos viciados em sensações nocivas e perversas. Os jogos de azar, a vida constantemente em risco, até mesmo a emoção de brigar no trânsito, de discutir com os vizinhos, ou com o cônjuge.

“Ah! Que contradição, só a guerra faz nosso amor em paz.”  Gilberto Gil

Hoje já se sabe da relação entre mente e corpo. Podemos facilmente eliciar um sentimento através de determinada postura corporal aliada a respiração. Podemos ter as respostas fisiológicas que muitas drogas (legais ou ilegais) proporcionam através de situações pré-determinadas. O que a cocaína faz em nosso corpo?! Ela quebra todas as moléculas de glicogênio e as transforma em glicose, descarregando-as imediatamente e de uma só vez em nossa corrente sanguínea. Ora, isso é o mesmo que acontece em uma situação de perigo, de risco. E a maconha, o Prozac?! Aumentam os níveis de serotonina de nossa química cerebral. Situação que a hiperventilação provocada em Alexandre e Débora reproduzem com exatidão. Vêem a relação!? Sim, complexo. Sim, contraditório. Mas nosso espaço acabou. Um feliz 2008 a todos!

Dante Moretti


Referências bibliográficas:

1. BERTHERAT, Thérèse – O corpo tem suas razões: antiginástica e consciência de si – 19º ed. Editora Martins Fontes, São Paulo 2001.
2. KAPLAN, Harold I. e SADOCK, Benjamin J. e GREBB, Jack A. - Compêndio de Psiquiatria Clínica: Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica – 7º ed. Editora Artes Médicas, Porto Alegre 1997.
3. LOWEN, Alexander – Exercícios de bioenergética: o caminho para uma saúde vibrante – Editora Agora, 7º edição, São Paulo 1985.
4. PERLS, Frederick S. – Gestalt terapia explicada – 3º ed. Editora Summus, São Paulo 1977.
5. REICH, Wilhelm - Análise do Caráter – 3º ed. Editora Martins Fontes, São Paulo 2001.