Na última sessão ele trouxe muita emoção ao falarmos sobre seu pai. Seus olhos, cheios de lágrimas, brilharam, sua pele corou e ruborizou. Senti (pois estávamos próximos - os dois em pé, frente a frente) seu campo aumentar de intensidade. Esquentou a sala inteira. Naquele dia trabalhamos seu “movimento” de menino a homem. Ele abandonava cada vez mais a posição de filho, de jovem, e se tornava, um pouco a cada dia, mais homem, maduro e seguro de si. Na terminologia corporal reichiana, se apropriava cada vez mais de suas pernas e sentia o chão com segurança e contato. Relacionava também seu quadril com seu coração – sinal de que conecta seu desejo sexual com a emoção do peito - e vislumbrava seu corpo como uma unidade íntegra e fluida. Já conseguia abrir o peito e deixar o sangue, irradiado de oxigênio, irrigar o coração. Descobrira que chorar e expressar sua fragilidade eram sinônimos de força e poder (o poder do olhar confiante, o claro poder da honestidade e da conexão entre sentimento, pensamento e ação). Sentira que sempre depois de chorar ou de dar vazão as emoções mais tenras, gozava de longo e prazeroso alívio. Em outras palavras, deixara de ser um “adolescente” encouraçado e começava a aceitar a ambivalência do animal humano com suas “ondas” e “marés” contraditórias.
Vínhamos juntos fazia um ano, semanalmente, com encontros de uma hora. Demorou algumas sessões para relaxar seu quadril e se entregar as vibrações do assoalho pélvico (reflexo do orgasmo). Difícil foi deixar essas ondas chegarem em seu coração. Teve uma educação muito rígida. Italiana, católica. Amolecer o peito, e se entregar aos sentimentos que ali moravam, era aterrorizante. Aos poucos, com muita elaboração, lindas e suaves ondas, carregadas de saúde e prazer começaram a percorrer seu peito. A conexão estava se sintonizando. Com seu tórax flexível e sua respiração liberta da blindagem da couraça foi fácil expressar seus sentimentos e medos com a própria voz. Ouvir o som da própria voz, que experiência nobre. Enfim, encontrou a espiritualidade e o prazer de estar “encarnado” em seu corpo.
Falamos de um homem raro. Conectado com seu corpo. Saudável. Focado em seu real poder na busca de expressar seus sentimentos com sinceridade e equilíbrio com o meio interior e exterior. Quarenta anos. Capaz de estabelecer relações sexuais afetivas saudáveis. Trabalhando e produzindo com prazer. Investindo os lucros desse trabalho em si mesmo. Se aperfeiçoando. Não ingeria álcool, não usava drogas nem medicina alopática. Não comia carne. Não fumava. Fazia exercícios e se expressava artisticamente diariamente. Gostava de ler e ver filmes que lhe fizessem refletir sobre sua condição enquanto ser humano.
Confiávamos um no outro. Eu era sincero com ele (a ponto de não me colocar numa posição de super terapeuta perfeito infantilizando e fantasiando nossa relação) e, espontaneamente, usava minha técnica para possibilitar um livre fluxo emocional e fisiológico - bioenergético. Baseado nessa sinceridade, propus a ele uma sessão para trabalharmos essas emoções presas ligadas a figura do pai. Ele aceitou e fomos direto ao assunto.
Vimos que seu pai era ao mesmo tempo amado e odiado. Quando criança disse que sua chegada era recebida com muita alegria, mas o corte era iminente. O desprazer sempre vinha logo após as brincadeiras. Sua relação era passional, carregada de fortes sentimentos de ”clâ”, de família, de união. Primogênito de três irmãos, fora educado com muito amor e dedicação por parte dos dois genitores. Ele sempre disse que seus pais dariam a vida por ele e ele faria o mesmo. Não raras às vezes em que os olhos enchiam de lágrimas simplesmente ao lembrar situações de sua infância. Chegando nessas emoções, com o peito aberto no stool*, percebera que não suportava tamanha “onda”. Era demais, imaginava que ao se entregar a tais sentimentos poderia “perder-se”, ficar frágil demais, como o era na infância. E ficava tonto, suava, contraia a cadeia posterior inteira. Descobrira - descobrimos juntos – que se aliviava de tamanho estupor emocional através de atividades corporais intensas (era praticante de arte marcial). Descarregava assim sua “energia” e aliviava a tensão interna. Foi fácil interpretar esse mecanismo pois o homem diante de mim tinha capacidade de sentir com mais segurança seu peito. Como eu confiava e conhecia seu processo, fui direto ao ponto. Pedi que trouxesse momentos bons vividos com seu pai. Após um silêncio, irrompeu uma forte emoção. Lembrara-se de como seu pai brincava com ele o pegando ao colo. A palavra italiana “niente” que sempre era dita após seu pai lhe dizer “grazie” abriu a porta das emoções reprimidas e presas. Ao repeti-lá diversas e diferentes vezes sentiu as mesmas sensações que sentia na infância. Sentir o amor de seu pai como quando criança e voltar a ”ser” criança com o ego adulto lhe deram o insight da reconfiguração familiar: seu pai está na terceira idade, frágil. E não é mais dono da segurança e do poder que possuía. Nesse momento se lembrou de situações em que o pai esbanjava poder e resolvia as perguntas da vida. Sentiu-se sozinho no mundo, sem ter mais o colo do pai ou alguém para quem correr (embora tenha vários amigos e os próprios pais ainda estejam em condições de ajudá-lo). E pode sentir seu coração encher de sangue e calor ao se conscientizar o grande amor que sente por ele.
Nesse momento descobriu que todo o ódio que sentira e atuara na adolescência vinha da sua incapacidade de expressar suas emoções relacionadas a figura paterna, que, presas no peito, precisavam escapar de alguma forma. Após esse dia, parou de brigar no trânsito e nunca mais bateu em seu cachorro. Abriu cada vez mais seu peito para o amor e refinou suas amizades. Ao aceitar seu amor, compreendeu mais os outros e suas diferenças. Discutia muito menos e escutava muito mais. Acrescentou a dança contemporânea a arte marcial. Parou de culpar seus pais pelas suas dificuldades e retribuiu, com amor e alegria, todo o carinho e amor que eles lhe deram (e dão até hoje, mas do jeito deles). Aprendeu a dizer (e a ouvir) “não” sem cortar as relações e sem guardar mágoas. Deixou de ser filho e virou um homem no momento em que aceitou a imperfeição humana deles (pais). Sua. Nossa. Conquistou humildade suficiente para assumir sua arrogância. Entendeu que na natureza tudo existe em abundância e que ao aceitar a potência de seu corpo, aceitava ao mesmo tempo a fartura e a “riqueza” da existência.
Ao expressar seu ódio encontrou seu amor. Quando amou realmente entendeu o que Roberto Freire dizia: “É o amor e não a vida o contrário da morte.”
*Stool é uma ferramenta desenvolvida por Alexander Lowen (discípulo de Wilhelm Reich) para “oxigenar” e “abrir” o peito. Possibilita um contato maior com as emoções ligadas ao coração.
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Dante Moretti