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Quem quer Morrer?

Que pergunta estranha é essa. Será que alguém acredita, tem certeza mesmo, que quando morre sua alma vai para um mundo melhor? Será que uma pessoa normal prefere deixar esta vida, boa ou má, antes da hora?

Eu gostaria muito de saber, particularmente, em que momento a alma (supondo que ela exista) entra no corpo do bebê e o deixa quando morre.
Mas quem tem esse privilégio de saber? Não pode ser qualquer um. Quem souber isso não é deste mundo não...). Nenhum humano tem mérito para entender esses mistérios.

Não somos especiais em nada na natureza, não somos diferentes da água, da rocha, do mosquito, do porco, do sapo, da Lua, do vento, do pé de alface...
 Não me importo porque suponho que ninguém tem nem teve nem terá esse privilégio. Só sei que um boi não entende de computador nem de internet nem descobre remédios nem destrói o mundo.

Otimistas e crentes são mais felizes que ateus e agnósticos porque conseguem minimizar a morte; conseguem enxergar algo que os descrentes (ateus) não veem. E afirmam com convicção que quando morrerem vão para o céu - onde não há angústias, nem dores.
Existe, portanto, para eles, esse lado bom da morte. E mais, dizem que vão se encontrar com o Criador. Que maravilhosa essa convicção!

Mas será mesmo melhor morrer porque a morfina não será mais necessária nem as máquinas que mantêm a vida?
Só quem está sofrendo muito poderá os dar uma resposta e eu acho que ninguém sabe o que acontece e existe depois da vida.
Se acabam as coisas ruins, acabam também as boas, ora!
E não dá para imaginar ficar sem nossa família e nossos amigos. Não tem sentido abandonarmos nossas músicas, nossos livros, nossa casa, não ouvirmos mais O Trem das Onze, Besame Mucho, Brasileirinho, Moonlight Serenade, Lupicínio, Chico, e Choppin...

Que se dane a morte. Vou morrer contra minha vontade, eu sei, e quando chegar o dia não quero saber que morri; não quero álbuns nem flores nem a bandeira do meu time.
Inferno? só faltava essa; além de perdermos as coisas boas daqui ainda precisamos tomar cuidado para não passar algum tempo no inferno?
Seja lá para aonde a gente for (se formos mesmo), as belezas do lugar, tenho certeza, são bem diferentes das terrenas. Lá não tem praia, barulho de chuva, gerânios nas janelas, pastéis, pudim de queijo, cerveja.... e a beleza feminina.

Então, vai ter o quê?
Não quero saber dessa história de anjos tocando trombetas. O céu e o inferno são coisas nossas, ficam aqui, ao nosso lado.
O céu são nossas alegrias - nossa família, nossa casa, amigos,  cervejas geladas, um bolo gostoso, viagens de trem, de avião, de canoa, pescaria no Mato Grosso, a vitória do nosso time.

E o inferno? São os sofrimentos. Ah! E muitos.
Dizem que viver é sofrer, não dizem? O inferno, ou infernos, ficam por conta das doenças, das tragédias, da fome, chefes chatos, ingratidões, traições, troco errado, filhos drogados, assaltos...
Querem saber? Entre os prós e os contras, estar vivo já convence e basta. Inventaram até essa filosofia popular: “Se morrer é descansar, prefiro viver cansado”.

Por isso vamos aproveitar o tempo, não perder um segundo sem curtir a vida, apesar das mazelas, que são necessárias porque sem elas não há como reconhecer as alegrias da vida. É preciso conhecer a dor e o amargo. Se tudo for bom e doce, é certo que enche, incomoda, e a vida fica sem graça. Água demais na planta é ruim para ela.
  A felicidade não está a nossa frente, fugindo. Ela está dentro de nós, mas às vezes não somos capazes de senti-la porque falta sofrimento em nosso coração.

Hoje vi no quintal do meu vizinho o que sobrou de um imponente pé de jaracatiá. Agonizante, seco, galhos caídos, tronco cheio de formigas e outros bichos. E, sem cerimônia, um pica-pau tirava proveito. Tuc-tuc-tuc! Toc, toc, toc!

Assim é nossa vida. Infelizmente valorizamos o essencial quando nossos créditos estão acabando.

Isto lembra a história do cesto de jabuticabas. Quando está cheio, os frutos menores, feios, defeituosos são deixados de lado; mas na medida em que vai se esvaziando são saboreados devagarzinho, até o caroço.

Nos momentos de desespero o homem passa a acreditar em milagres e na existência de outra vida após a morte. É por isso que dentro de um avião em pane não existe nenhum ateu dentro dele...


Plínio Montagner