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Quimera

Relâmpagos tremeluziam no horizonte escuro no entardecer preste a se findar. O luar escondido em nuvens densas, debruçado à beira do penhasco, observava o ir e vir das ondas ricocheteando nas rochas e explodindo suas águas enérgicas que pareciam zangadas. Elas deveriam estar cansadas por virem de tão longe, se desdobrando em vagas desde outras terras distantes, onde as praias e pessoas tão diferentes em todos as costas deveriam despertar-lhes  as curiosidades, e então se espraiavam sobre a areia querendo ver mais adentro, ou pretendendo subir pelos rochedos para espreitar o que havia por trás deles. Queriam conhecer os homens e como eles  viviam porque não os compreendia ...

Às vezes queriam saber o que existia dentro daqueles navios tão grandes ou barcos à vela e então se tornando gigantescas, lavavam todo o tombadilho trazendo de volta muitos objetos. Uma linda mocinha toda vestida de branco num tecido esvoaçante da cor das suas espumas, chamou sua atenção quando ela  se debruçou na balaustrada  de um iate que passava .

O vento enfunando suas ondas arremeteu-as para dentro do iate trazendo para si a linda moreninha junto dos outros destroços. Ela gritava chamando por seus pais, batendo pés e mãos. E não é que ela sabia nadar, pois até conseguiu se agarrar numa tábua que flutuava! Essa foi sua salvação até que tudo foi se acalmando, o tempo que não estava nada bom. prenunciava uma tempestade com relâmpagos coriscando o céu foi se acalmando como que por encanto.

O mar queria tanto ficar com a garota para sempre junto dele , mas pensou: não valeria a pena, pois os homens eram mortais, não duravam para sempre, ele bem o sabia, suas vidas eram falazes. Então, para que ter esse desejo? Isso era apenas uma quimera! O mar mostrando seu amor pela garota, deslizando as águas sobre ela, como que para conhecê-la centímetro por centímetro, foi levando-a para a praia mansamente embalando aquele corpo frágil.

Quando ela é depositada a salvo  na praia, as ondas recuam e suspirando acordam daquele rompante para chegarem à conclusão de que a mocinha nada representava de especial que merecesse sua curiosidade, tinha vida efêmera como qualquer  ser humano. E como ser humano não era nada confiável, porque era de uma espécie predadora que onde tocava estragava, não era unida pelas leis universais; tanto, que o próprio mar, antes tão limpo e sadio, por causa do convívio com os humanos, ficou poluído e mal-cheiroso. Muitos espécimes nem mais existem por causa da ganância, daqueles que pescam mais do que precisam para viver, sujam os mares com óleo que matam peixes e aves e outros animais marinhos, que perdem seu habitat. Os recifes de coral estão diminuindo com a poluição, estão deixando de colorir este nosso mundo encantado. Liquens, algas, musgos, conchas, estão com os dias contados porque os humanos estão modificando até o clima. E o mar, que sempre teve os humanos como seus amigos não confia mais neles, agora os leva para o fundo, pois são perigosos para a fauna e a flora oceânica.

Tudo na terra é criação de Deus e todos se beneficiam disso, numa dependência recíproca e benéfica e cíclica, por isso todos devem se respeitar para haver harmonia e sobrevivência unânime à todos que pertencem a cadeia da Criação de Deus.

Tudo isso era um pensamento vão das ondas bravias do mar, que poderia ser respeitado e voltar a ser como antes, se essa moça e toda sua espécie tivessem consciência disso!


Elda Nympha Cobra Silveira