Vou deslizando por sobre as pedras, escorregando por entre as mais lisas ou pontiagudas, em borbotões que se lançam pelos ares respingando e formando um véu transparente. Às vezes, o sol se aproveita para colorir minha passarela e forma um arco-íris que vai se comunicar com um lago distante, e na corredeira, vou deixando pedras submersas ou desnudas na minha ânsia de ir serpenteando por entre as margens.
No meu remanso garças e biguás passeiam por entre aguapés floridos, à espreita de um peixe distraído, sem perceberem o perigo iminente. Abafo meu grito por socorro quando chegam as espumas assassinas! Malditos homens que me maltratam assim! Sentirão na própria carne o peso desse desvario! Onde estão os dourados, os curimbatás, os jaús e pintados, que aqui não sobrevivem mais? São trazidos de longe para que os turistas possam comê-los nos restaurantes, certos de que foram pescados na Rua do Porto!
Vai o dia, vem a noite, vou viajando e passando por caminhos diversos. Encontro pescadores com suas varas de bambu, algumas até com molinete, que teimosamente, numa persistência insistente, lançam suas iscas em minhas águas, com pouco sucesso. Já ao cair da tarde, tanto esforço os leva ao cansaço.
Margeio restaurantes, a Casa do Povoador, o Engenho Central, o Largo dos Pescadores, onde à noite me embalo com as músicas de seresta dos cancioneiros apaixonados pela Noiva da Colina, às quais acompanho alegre, com os meus compassos de chuá-chuá, do saudoso cantor Cobrinha..
Os botes cortam minhas águas deixando uma esteira prateada e borbulhante. Gosto quando eles me fazem companhia: é vitalizante! Os bonecos do Elias, estáticos me observam impassíveis... Eles me conhecem bem, sabem que ao passar, se estou bravo, sou como fera ferida, que avança, mata e engole as vítimas incautas.
Do que realmente não gosto é da poluição. São garrafas vazias flutuando e se enroscando em minhas margens. Até quando? Sou muito vaidoso e gosto de refletir as paisagens por onde passo, como se fossem pinturas de aquarela, mas nem sempre posso...
Transponho a Ponte Pênsil, a do Morato, do Caixão, sorrindo para quem atravessa. Os ranchos de pescaria, à beira d’água, geralmente na margem esquerda, eram usados também para o lazer da família.
Como os peixes hoje são bem menores, sei que os nativos daqui sentem muitas saudades do tempo da fartura, quando se tinha peixes “para dar e vender”. É o sentimento de nostalgia dos que sempre me amaram!
O Clube Regatas tinha um famoso trampolim, que sempre foi usado sadiamente, para o divertimento, ou para torneios de saltos ornamentais. Esse clube tão tradicional, trazia para as minhas margens equipes de jovens nadadores, remadores ou outras modalidades de esporte aquático, que tinham cumplicidade comigo, pelo prazer do esporte que eu podia lhes oferecer.
De manhã ou à tardinha, eu tinha encontro marcado com os rapazes, que saíam das escolas, das faculdades ou do trabalho, e desciam à pé até às minhas águas, pois poucos tinham carro para se deslocarem e assim usufruir da minha energia.
Mas “na vida tudo passa”. Espero ser tratado como um tesouro natural, modéstia à parte, pois sei que haverá dias melhores, se as pessoas de hoje, e as das futuras gerações, souberem me respeitar.
Elda Nympha Cobra Silveira