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25/08/10

FALAR E OUVIR e ESCREVER

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Alguém fala sozinho? Normalmente, ninguém. Falar sem ouvinte não tem sentido. Mas há quem fale; todos falam sem perceber. Eu já me peguei dirigindo falando sozinho, no elevador, no banho... e até fazendo discurso (caso mais grave, porque não falo em publico..).

Falar sozinho é como cantar sozinho, não há mal nenhum nisso. Faz bem. É como ficar diante do espelho fazendo caretas. O problema é se alguém nos flagra falando e gesticulando: internação na certa.
 
Deixando de lado essas “anomalias” da verbalização, o certo seria falar e o outro ouvir até o assunto acabar. Mas ser ouvido está cada vez mais difícil. Se ouvir está difícil, mais complicado é escutar, que significa - ouvir e entender.
Nos cruzamentos das vias férreas existem placas de sinalização onde está escrito: PARE, OLHE E ESCUTE. Escutar é coisa séria e necessária. Por quê? Para não ser atropelado por um trem.

Os professores sabem o que é falar, ouvir e entender.

Para entender, não bastará o silêncio se não houver um motivo para querer saber o que está sendo dito.
Escrever parece ser mais fácil. Um escritor, se conhecido pelos leitores, não precisa preocupar-se tanto se vai ser lido porque seu tema é dirigido a uma platéia acostumada aos seus temas.
O poeta e escritor Rubem Alves disse, lembrando Alberto Caieiro, que não basta ter ouvidos e silêncio no ambiente: É preciso também silêncio na alma. Quando a alma estiver conturbada não há orador capaz de transmitir a mais simples informação.
De tanto ficar diante da TV e ler histórias em quadrinhos quase ninguém entende mais o que lê, nem ouve, se não aparecer uma legenda, um cenário, figurinos, fisionomias,  falas e sons.

Novelas, cinema e histórias em quadrinhos comprometeram muito o aprendizado da leitura porque livros e jornais, exigem mentes treinadas e concentração.
Quem consegue imaginar o que os olhos não enxergam e os ouvidos não ouvem é um privilegiado - sentirá mais prazer na leitura.

Se as novelas de rádio voltassem seria muito bom para educar a alma e desenvolver a imaginação. Cada um faria seu filme, imaginaria seus personagens, criaria os cenários, as cores, ouviria o bater das portas, sentiria o cheiro da chuva, e o vento seria visto e ouvido.

Ler gibi é gostoso porque é fácil. Filmes e novelas também; vem tudo pronto pela editora. Mas dá nisso. Encontramos dificuldades de ler um livro até o fim porque a preguiça mental se alojou.

Interpretar um texto simples ficou difícil.

Sumiram os oradores, os grandes escritores e contistas, romancistas.  No Brasil dá para contá-los pelos dedos.
O que está muito difícil também é descobrir ouvintes. 
Se iniciamos uma conversa sempre alguém se intromete e dispara um assunto que não tem nada a ver com o que estávamos falando. 
Contamos um fato não conseguimos chegar ao fim porque aparece alguém para dar um palpite que julga ser melhor que o nosso, e mais, sem misturar com o que estávamos dizendo. E a gente fica com cara de bobo.
É a falta de silêncio na alma, como diz Rubem Alves, ou, simplesmente, falta de boas maneiras.
Por que não criar mais cursos de “escutatória” e menos de oratória?

fim


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Fonte: PLÍNIO MONTAGNER